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segunda-feira, 15 de março de 2010

Sartre - "A existência precede a essência"

Na foto: Simone de Beauvoir, Sartre e Che Guevara, em 1960.

A existência precede a essência? Levando em conta que de fato nós existimos e se considerarmos isso um problema resolvido, poderíamos afirmar que possuímos alguma essência?


Definiríamos a essência como algo que seja imutável e que nos caracterize desde os nossos primórdios; algo que faz com que eu seja eu e não o outro; algo que sem ele eu seria uma outra coisa qualquer; algo que o tempo não seja capaz de perecer antes da morte (mas que talvez até persista além dela na memória dos outros sobre mim).

Será que não há, necessariamente antes da existência, uma essência que possa me definir enquanto tal? Ora, se é possível alguma definição qualquer que seja, é por que a essência já está ali, presente; não como sendo algo extrínseco, mas que seja eu próprio, não o todo, mas a parte que é necessária para me caracterizar. Nesse caso, supõe-se que há um meio-termo entre não-existência e essência, ou seja, um momento em que a minha existência não me caracteriza, e então nesse meio-termo eu existo tão-somente enquanto coisa.


Mas, a partir de que momento desenvolve-se minha essência? Se ela é desenvolvida, é provável que seja mutável. Então, o que faz da minha “essência”, de fato uma essência, se ela própria está em desenvolvimento? Se a minha essência com o tempo se modifica, por que ela me caracteriza de forma única se ela também modificou-se comigo?

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Vingança






Certa vez, conversando com um amigo, falávamos sobre "vingança" e ele me relatara alguns casos pessoais no qual foi vítima desse instinto humano. A conversa desencadeou na questão da própria natureza humana e de como a razão poderia ser capaz de alterar o rumo de nossas reações puramente instintivas.



No curso da história da humanidade, o sentimento de vingança esteve presente em todas as sociedades, e diversas atitudes foram motivadas por ele. É factual que a natureza humana tem um espaço cativo para a inveja e a vingança; dentre outros sentimentos perversos, porém podemos, por intermédio da razão e conseguinte reflexão, ponderar o sentido de reações motivadas por tais instintos e deixar que elas atrofiem-se em nós, em graus relacionados com a própria capacidade de raciocínio. Por outro lado, aquele com baixo estímulo à reflexão amiúde desemboca para uma personalidade de sentimentos primitivos, e falo não só de vingança e inveja, como também violência e intolerância.



Voltando à questão específica da vingança, Friedrich Nietzsche percebe como acontecimento mais significativo, motivado por ela, a revolução escrava acarretada pelo judaísmo e cristianismo sobre a casta dos nobres e guerreiros. Nessa vingança, voltada sobre os nobres, inverteram-se as premissas, os valores; antes o bom era o nobre; agora o bom é o comum. Isso é o que Nietzsche chama de transvaloração, um processo operado através de vingança por sacerdotes. Estes são homens que são condutores da massa e, segundo nosso autor, adulteradores da vida. O comportamento destes sacerdotes é marcado pelo asceticismo. Daí ser chamado de ideal ascético o local para onde é convertida a impossibilidade o ressentimento diante da vontade de poder/eterno retorno. Asceticismo é sublimação desse ressentimento em uma nova valoração, agora uma moral de escravos, não mais uma moral nobre. E a "nova" moral, para Nietzsche, é uma forma de os fracos dominarem os fortes.



Assim, a vida eternamente retorna como impulso para as realizações de suas possibilidades. Vida, segundo Nietzsche, é o “movimento sempiterno de diferenciação da vontade”, tendo este sempiterno o caráter do eterno retorno, que determina o instante em sua circularidade. Vontade de poder/eterno retorno diz respeito a toda e qualquer dimensão do acontecimento de realidade, narrando, enquanto existência a assunção fundamental da vida em sua cadência, vigência, instauração e propriedade. A vontade de poder não é somente essência, mas uma necessidade.