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sábado, 15 de março de 2014

O Teorema Zero

Assisti hoje, pela segunda vez, o filme "The Zero Theorem". Ontem, ao sair do cinema, fiquei fascinado pelo fato pelo fato da obra ter me despertado reflexões e sensações tão importantes e que não sentia há bastante tempo, apesar de nunca de fato ter me desligado delas, desde o primeiro segundo em que as mesmas se instalaram em minha consciência. Podemos priorizar em nossa busca pela verdade a Epistemologia ou a Ética, mas nunca poderemos escapar das primeiras questões que a priori nos vêm à mente quando começamos a nos maravilhar com o mundo.

O personagem central, Qohen Leth, interpretado por Christoph Waltz

O filme desperta questões fundamentais da existência, como o sentido da vida, a finitude, os nossos papéis existenciais, e mais algumas coisas menos explícitas que nossa interpretação pode buscar, como a suposta automação de qualquer outro ser vivo terrestre que não seja humano, dentre outras sacadas que podem ser extraídas da obra. Pensar a respeito desses temas não é só importante como nos faz sentir maravilhosamente vivos, ante ao absurdo que toda a matéria representa simplesmente por existir. O filme nos incita a pensar a respeito de tantas improbabilidades que foram necessárias para que estivéssemos aqui nesse momento, a começar pela própria vida na Terra e desde o primeiro organismo unicelular que foi capaz de se reproduzir e, então, a cada acontecimento histórico, de qualquer magnitude, que foram condições improváveis e que, sem esse conjunto de improbabilidades, não estaríamos aqui desfrutando de todo esse absurdo e nos sentindo privilegiados em sermos capazes de perceber o mundo e contemplá-lo em êxtase. Ainda que todas as respostas que temos das fontes mais confiáveis, como a Filosofia e as ciências apenas nos aproximem do entendimento, a consciência de que nunca alcançaremos a coisa-em-si também é algo fascinante. Não precisamos criar gnomos no nosso jardim imaginário, ele já é naturalmente maravilhoso, elegante e belo. 

O personagem central do filme é um homem transtornado, chamado Qohen Leth, que mora dentro de uma igreja abandonada (não poderia haver ambiente mais sugestivo) e que trabalha para uma empresa que o delega a missão de desvendar o Teorema Zero, o qual revelaria o início de tudo o que existe no mundo e, por conseguinte, o sentido de nossas vidas. O zero equivaleria a 100%, ou tudo que existe no universo, e Qoren, um gênio da matemática, só chega a números aproximados de 100, mas nunca desvenda completamente o teorema. Na prática, o teorema é real, mas ele simplesmente não consegue prová-lo. Qoren é um homem inquieto, que diz não sentir mais prazeres na vida e nada do que as pessoas costumam fazer o motiva. Ele alega que as festas, drogas, bebida, sexo e, enfim, todo tipo de prazeres são apenas paliativos fruto de nossa incompreensão daquilo que somos e do que estamos fazendo aqui. Ele vive angustiado e isolado porque, perto do absurdo da nossa existência, nada mais pode fazer igualmente sentido; então ele dedica sua vida de maneira obstinada a desvendar o mistério do teorema. Esse filme faz pensar o quanto a rotina convencional pode ser a própria destruidora de nossas vidas. Passar tanto tempo apenas fazendo planos ou gastando energia em coisas que não são realmente importantes para nós passa a ser uma decisão pouco inteligente.

Segundo o Dr. Peter Atkins, a Física contemporânea já chegou muito perto de desvendar a questão da origem da matéria, já que, segundo ele, a soma de toda a matéria existente tenderia a zero. Jean-Paul Sartre, em "O Ser e o Nada", alega que "o homem está abandonado na Terra, no meio das suas infinitas responsabilidades, sem ajuda, sem outros objetivos que não os que ele estabelece a si mesmo", e que "a vida nada é até ser vivida. Mas cabe-te a ti dar-lhe um sentido, e esse sentido nada mais é do que o sentido que lhe dás". Portanto, vá ao "Supermercado dos Sentidos", escolha o seu e desfrute da melhor maneira possível desta festa a qual não foi convidado: a vida.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Sartre - "A existência precede a essência"

Na foto: Simone de Beauvoir, Sartre e Che Guevara, em 1960.

A existência precede a essência? Levando em conta que de fato nós existimos e se considerarmos isso um problema resolvido, poderíamos afirmar que possuímos alguma essência?


Definiríamos a essência como algo que seja imutável e que nos caracterize desde os nossos primórdios; algo que faz com que eu seja eu e não o outro; algo que sem ele eu seria uma outra coisa qualquer; algo que o tempo não seja capaz de perecer antes da morte (mas que talvez até persista além dela na memória dos outros sobre mim).

Será que não há, necessariamente antes da existência, uma essência que possa me definir enquanto tal? Ora, se é possível alguma definição qualquer que seja, é por que a essência já está ali, presente; não como sendo algo extrínseco, mas que seja eu próprio, não o todo, mas a parte que é necessária para me caracterizar. Nesse caso, supõe-se que há um meio-termo entre não-existência e essência, ou seja, um momento em que a minha existência não me caracteriza, e então nesse meio-termo eu existo tão-somente enquanto coisa.


Mas, a partir de que momento desenvolve-se minha essência? Se ela é desenvolvida, é provável que seja mutável. Então, o que faz da minha “essência”, de fato uma essência, se ela própria está em desenvolvimento? Se a minha essência com o tempo se modifica, por que ela me caracteriza de forma única se ela também modificou-se comigo?

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O tabu do suicídio

Inicio este blog falando sobre o suicídio, que é um tema que é tabu em todas as sociedades. Ainda que em casos específicos, como o dos estóicos, ou no caso do suicídio pela honra da família, como acontece desde os tempos primórdios da cultura japonesa, é um tema que causa espanto e controvérsias.


Os estóicos respeitavam o ato do suicídio. Era até recomendado para quando se pudesse decidir que a vida não tinha mais o porquê de ser vivida. Os estóicos suportavam as adversidades com calma e dignidade, mas também acreditavam que as circunstâncias da vida de um homem podia se degradar a tal ponto (seja devido a uma tragédia pessoal, à ruína e a subseqüente miséria, seja devido a uma doença dolorosa e terminal), que um suicídio indolor se tornava a coisa mais racional a fazer. Se, para Platão, o suicídio é uma injustiça praticada contra si mesmo, para Sêneca, “a vida não vale a pena ser comprada a qualquer preço. O essencial não é viver, mas viver bem”. O próprio Sêneca cometeria suicídio mais tarde. Aristóteles argumenta que ninguém pode ser agente e paciente de uma injustiça, portanto, a injustiça do suicida é para com a própria sociedade. Para Epicuro, o sábio deve ser alegre mesmo nos sofrimentos cruéis, o que para alguns reflete as próprias limitações que acometiam sua saúde. Um discípulo epicurista, Hegésias, certa vez questionou se “se a felicidade do homem consiste na soma de seus prazeres, e estes forem inferiores à soma de males que a vida lhe oferece, como não justificar o suicídio?”.


Zenão de Atenas é, de certa maneira, controverso na sua abordagem da fatalidade suicida, porém admite que em certos casos, o suicídio é justificável, já que, para ele, o homem deve viver conforme a Natureza (Logos). Portanto, deve deixar a Natureza seguir o seu curso. Mas, em certos casos, quando ato de virtude, pode o sábio escolher a hora que o Logos determinou... (perscrutando os seus desígnios). Sua linguagem há um misto de mitologia, mas exacerba bem a possibilidade das exceções em nome da honra.


Se na Antigüidade, as divergências a respeito do suicídio eram claras, na modernidade há uma tendência de ausentar de sentido o ato suicida. Descartes afirma que é claro que a vida oferece mais bens do que males, já que a vida é o suporte básico de todos os bens, sem a qual nenhum bem existe. Contudo, todos os bens são incertos, exceto a própria vida. Portanto, suicidar-se é fazer mau-uso do livre arbítrio. Spinoza, apesar de diferentes argumentos em relação à René Descartes, conclui no mesmo caminho no que tange ao seu fim, quando verbera que o desejo é a essência mesma do homem, isto é, o esforço pelo qual o homem tende a perseverar no seu ser. O princípio da virtude é o esforço para conservar o próprio ser. O suicídio não é um ato de virtude pois que visa a destruição do que foi a essência mesma do homem, seu poder e sua tendência fundamental. Portanto, para Spinoza, não pode haver virtude no ato de tirar a própria vida, noutras palavras, o ato suicida é um ato de covardia, já que significa a desistência de permanecer vivo. Voltaire comenta sobre os suicidas de forma lacônica – e até mesmo engraçada – quando resume que os suicidas são, simplesmente, “...uns ociosos ou gente que não sabe mais o que fazer”.


Rousseau alega que ninguém é completamente inútil, já que qualquer um dos homens seria útil à humanidade pelo simples fato de existir. Então, nesse caso, o suicida estaria cometendo um roubo contra o gênero humano, já que sempre fica uma boa ação por fazer. E tal ação, obviamente, teria sido feita pelo suicida – e só por ele. Kant leva um quê de complexidade à questão, quando afirma que “o suicídio não pode ser erigido em norma universal (em padrão para a espécie humana), é infração à Lei Universal, porque destrói o próprio sujeito da moralidade; o suicídio é usado como um fim em si mesmo, arbitrariamente, sendo um atentado à liberdade; é a própria negação do querer-viver da Natureza (o oposto da sintropia da vida). Essa visão kantiana do suicídio compartilha com Sartre na questão da falta de respeito ao livre arbítrio (“mau uso” do mesmo denota julgamento de valor). Dostoievski analisa a questão sem omitir uma reflexão, apenas afirma que aquele que se mata se coloca no lugar do próprio Deus.


Descendo os degraus da academia à sociedade comum, com pessoas simples, que simplesmente se horrorizam ao saber que aquela pessoa “tão promissora” cometeu suicídio, voltamos à realidade crua que ronda a vida, que é a morte. Por mais que se omita ou não o assunto do suicídio, o fato é que o homem sempre continuará senhor da sua vida – ao menos da decisão de continuar vivendo.