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sábado, 16 de agosto de 2014

Crítica à "Crítica do Horror Puro", de Woody Allen

Num texto de Woody Allen, intitulado "Crítica do Horror Puro", o autor ataca o racionalismo e o empirismo numa só tacada e trata o conhecmento epistemológico como algo inatingível. O texto é superficial e raso, reproduzi-lo-ei abaixo em itálico para depois comentar mais a respeito de um ponto de vista filosófico clínico.



Ao formular qualquer filosofia, a primeira consideração sempre deve ser: O que nós podemos conhecer? Isto é o que nós podemos ter certeza de conhecer ou de saber que conhecemos, desde que seja algo conhecível, é claro. Ou será que já esquecemos e estamos apenas com vergonha de admitir?

Descartes roçou o problema quando escreveu: Minha mente nunca poderá conhecer o meu corpo, embora tenha ficado bastante íntima de minhas pernas. E, antes que me esqueça por "conhecível" não me refiro ao que pode ser conhecido pela percepção dos sentidos ou ao que pode ser captado pela mente, mas ao que se pode garantir ser conhecido por possuir características que chamamos de Conhecibilidade pelo conhecimento - embora todos esses conhecimentos possam ser ditos na frente de uma senhora.

Será que podemos realmente "conhecer" o universo?

Meu Deus, se às vezes é difícil sairmos de um engarrafamento! O problema, no fundo, é: há alguma coisa lá? E por que? E por que tem que fazer tanto barulho? Finalmente: não há dúvida de que uma característica da "realidade" é a de que lhe falta substância. Não quero dizer com isso que ela não tenha substância, mas apenas que lhe falta. (A realidade de que estou falando aqui é a mesma que hobbies descreveu, só que um pouquinho menor).


Logo, o dito cartesiano "Penso, logo existo" seria melhor expresso na forma de "Olhe, lá vai Edna com o saxofone!". Do que se deduz que, para conhecer uma substância ou idéia, devemos duvidar dela é, ao duvidar, chegamos aperceber as características que ela possui em seu estado finito, as quais são "por si mesmas" ou "de si mesmas" ou de qualquer outra coisa que não tem nada a ver. Se is to ficou claro, podemos deixar a epistemologia de lado provisoriamente, e mudar de assunto.



O texto de Woddy Allen inicia propondo uma análise epistemológica de possibilidade; outrossim questionando o que é que nós (referindo-se, provavelmente, à espécie humana) seríamos capazes de apreender no intelecto. Ele então especifica de que se trata de algo que nós tenhamos certeza de conhecer (lembra-nos o único conhecimento infalível para Descartes, o qual afirma que ele, que pensa e age naquele instante, existe - então a existência de si é um fato). A reflexão a seguir já começa a dar indícios de Intencionalidade Dirigida, quando ele, através da suposição, busca incutir no leitor a hipótese que a informação foi perdida e que simplesmente estamos com vergonha de admitir este fato.

O autor, finalmente, cita o próprio Descartes e esclarece que o que considera por “conhecível” – a priori, informação adquirirda e processada pelo intelecto – não se refere aos dados empíricos e nem mesmo racionalistas, já que ele também refuta quaisquer dados que possam ser captados pela mente. Para essa afirmação curiosa, aparentemente até mesmo sem sentido, ele direciona o leitor para uma terceira via utilizando-se da Intencionalidade Dirigida: cria um conceito que chama de “Conhecibilidade” pelo conhecimento, conceito este que poder-se-ia ser entendido por qualquer um. Ou eu não fui capaz de compreender o autor muito bem ou é extremamente vaga e superficial, permita-me afirmar, a argumentação de Woody Allen. Ele utiliza-se da Intencionalidade Dirigida sem, contudo, indicar um caminho sustentável. Esse é um dos cuidados que devemos ter na prática clínica – é claro que Allen não é o meu terapeuta e portanto não tem a minha Historicidade em mãos – mas uma Intencionalidade Dirigida precisa ser pensada e cuidadosamente inserida no processo terapêutico para não ser capaz de pôr tudo a perder, inclusive a confiança no filósofo clínico. Mais uma vez se faz necessário o estudo da Historicidade e compreensão da Estrutura do Pensamento para minimizar as hipóteses de erro e, quando necessário, poder utilizar-se das ferramentas disponíveis na Filosofia Clínica com critérios bem definidos.


O texto de Allen segue falando de coisas triviais, como por exemplo se somos ou não capazes de conhecer alguma coisa de fato – um dos problemas epistemológicos clássicos da Filosofia. Cita exemplos do cotidiano e, por fim, cita que à aparente realidade, na qual ele se refere bem utilizando as aspas, falta “substância”. Ou, ao menos, não temos acesso a essa substância, como pude entender pela explicação posterior. Deste ponto de vista, surge outro contorcionismo raso: ele minimiza o “Penso, logo existo” de Descartes relacionando-o com outra coisa qualquer. Com isso, através de Intencionalidade Dirigida, ele tira completamente o sentido de veracidade do que para Descartes seria a única coisa irrefutável capaz de ser conhecida.

Allen argumenta que, se para conhecer uma substância ou idéia, devemos duvidar dela, e ainda assim o conhecimento a respeito das mesmas não é confiável, devemos então abandonar completamente a Epistemologia. Na análise do autor, é perda de tempo pensarmos a respeito da coisa-em-si, já que esta é inatingível. O uso da Intencionalidade Dirigida por parte de Woody Allen, para mim, seria ineficaz, já que não é novidade que não temos acesso à substância ou à realidade absoluta das coisas, mas a investigação racional pode nos aproximar delas ou ao menos nos apresentar dados mais confiáveis do que se simplesmente “mudarmos de assunto”. Essa postura que ele apresenta, ao meu ver, é até perigosa pois trata de maneira jocosa tudo aquilo que nós temos por conhecimento epistemológico.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Ciência, Metafísica e Religião

Não podemos concluir absolutamente nada sem uma evidência, seja no empirismo ou no racionalismo. Algo que parta de uma mera necessidade de conforto, por exemplo, jamais pode servir como premissa de alguma conclusão válida. O fato é que não há quaisquer indícios pra imaginar uma entidade criadora, especialmente nos nossos dias, cuja prioridade do conhecimento é o entendimento dos fenômenos através da empiria da metodologia científica. A metafísica foi abandonada justamente por não ser capaz de desenvolver conhecimentos palpáveis, que possam ser evidenciados. Não há na contemporaneidade mais qualquer sentido em continuar tentando interpretar o mundo metafisicamente.

Não há provas contra a existência de tudo que podemos imaginar: se eu jurar que existem unicórnios no sub-solo de Marte, alguém jamais vai conseguir provar que eles não existem. Contudo, ninguém em sã consciência pode achar razoável que isso seja real. A única coisa que faz com que uma entidade divina ganhe privilégio em relação a tudo que possamos imaginar, como por exemplo o monstro do espaguete voador, unicórnio rosa invisível, etc., é justamente a necessidade que tinha a humanidade de conhecer e compreender o mundo que se explicitou nos primórdios através das religiões e permanece até hoje, com os mitos atuais; bem como a necessidade de conforto pessoal e de algo que alivie a angústia a priori de se sentir finito e só no mundo. Uma vez, contudo, que já temos condições técnicas de realmente compreender o mundo através do conhecimento verificável, através de evidências que nos permitem tirar conclusões confiáveis, ao contrário dos mitos, não há mais sentido em tentar compreender o mundo metafisicamente - isso já é inclusive um ponto pacífico na Filosofia Contemporânea. A principal diferença entre o conhecimento religioso e o científico é justamente a origem dos mesmos: o científico é empírico, verificável e revisionista e daí vem a sua credibilidade. Assim como o conhecimento filosófico pode ser uma chave para uma compreensão efetiva da coisa-em-si, pois a ciência não abrange suficientemente temas como Ética, Estética e a própria Lógica, que flutua entre a Filosofia e a Ciência. Portanto, os conhecimentos com algum grau de credibilidade e revisionistas que nós temos são justamente o científico e o filosófico, desde que não esteja contaminado pela Metafísica pura, que tem sua importância histórica mas foi substituída pelo conhecimento verificável.
Epistemologicamente, de que maneira tenho condições de utilizar-me da dedução, ainda que do ponto de vista da lógica aristotélica, para extrair conclusões a respeito daquilo que vejo no mundo? Compartilho da posição de Shopenhauer, que ao meu ver é até uma conseqüência das meditações cartesianas. Para "Tio Shopa", o mundo é representação do sujeito. A terra e o sol são representações do sujeito. O mundo circundante somente existe (da forma como o concebo) como representação. Tudo o existe para o conhecimento, isto é, o mundo inteiro, nada mais é do que o objeto, que é uma representação. O mundo é representação nossa e nenhum de nós pode sair de si mesmo para ver as coisas como elas são. Tudo aquilo que temos conhecimento se encontra dentro de nossa consciência. Partindo do princípio que eu só posso "julgar" o mundo a partir da minha própria representação (que pode tornar-se factual através de indução, dedução, interpretação, etc.) tenho como ir formando a minha visão de mundo. E é dessa maneira também que compreendemos a priori vários fenômenos da natureza. A partir do momento em que a origem do meu ponto de vista não é racionalista, mas empirista, é claro que há também uma base histórica para a minha conclusão, afinal, é justamente aquilo que me parece, aquilo que percebi ao meu redor e concluí, a posteriori, através do intelecto. Em Marx, a origem do conhecimento relaciona-se inversamente à alienação que proporciona o ato da fé [de não compreender, não questionar, aceitar e acreditar que isso é uma virtude] e relaciona-o, necessariamente, às relações do Estado. 

Não é minha intenção, aqui nestas linhas, de limitar o conhecimento válido ao empirismo. Talvez isolando algum trecho em que abordei o conhecimento científico e filosófico fosse possível deduzir isso, mas não é verdade quando se observa todo o contexto: eu não descarto os conhecimentos não-empíricos, obviamente, como a Lógica, a Epistemologia, e dentre outros, até mesmo a Ética, que pode ser pensada tanto na empiria quanto no racionalismo. O que eu reitero - e não sou o único, como disse, isso é ponto pacífico na Filosofia Contemporânea - é que a Metafísica não é uma área que continua a ser abordada simplesmente por que não há mais sentido, hoje, em pensar o mundo metafisicamente, já que imaginar algo que jamais vai ser demonstrado é como andar numa esteira. Temos, com o método científico, maneiras mais eficazes de compreender a Natureza e a origem da matéria. De fato, o conhecimento científico é empírico, revisionista e tem credibilidade em relação ao conhecimento religioso justamente por fazer mais sentido. A religião, como nos diz o emblemático cientista Richard Dawins, faz com que 'fiquemos satisfeitos em não compreender o mundo'; e duvidar disso é já não ter fé a priori. Ora, os mitos já fizeram seu papel na história da humanidade, mas hoje não precisamos mais nos apegar desesperadamente a esses princípios que não exploram o potencial humano em desenvolver maneiras mais eficazes de compreender a coisa-em-si. O método científico não é engessado e já foi diversas vezes aprimorado desde o seu princípio no século XIX. A questão é essa: a ciência não tem - e nem pretende ter - todas as verdades do mundo, mas ela se propõe a pesquisá-las. E buscar respostas que façam sentido. 

O que promove o 'conhecimento' religioso, que não sejam medo da morte, busca de conforto, medo do inferno... fé? Concordo que nada deveria existir - por que as coisas existem? Essas questões estão cada vez mais próximas de um entendimento através da racionalidade científica, quando por exemplo nos explica o físico Peter Atkins que a soma de toda a matéria existente tende a zero. A cada novo passo da ciência no entendimento do mundo, perde mais e mais sentido imaginar o mundo metafisicamente e não é por acaso que pesquisas indicam que cada vez mais, menos pessoas se apegam à religião nos países com maiores índices em Educação, como aqui no Canadá, em que várias igrejas foram fechadas e em seus lugares temos museus, bibliotecas e até casas de show. Não há conhecimento válido quando alguma conclusão é engessada em sua origem por pressupostos (Ex.: Deus existe e Jesus é seu porta-voz. De que maneira poderemos ajustar nossos conhecimentos para que não haja contradição com essa verdade? É o que faz a Teologia, a pseudo-ciência de verdades absolutas). 

O abandono da metafísica como 'conhecimento válido' se deu muito gradualmente, após mais de dois mil anos de Filosofia. O desenvolvimento do método científico apenas desligou os aparelhos de uma metafísica que já se encontrava na UTI. O revisionismo está na própria natureza do conhecimento válido: ele não nasce pronto e acabado como a fé, ele é construído. Então até que uma tese científica seja válida ela vai passar por todo um processo de aprimoramento até que vire uma lei ou teoria (não no sentido de hipótese). E aí temos, novamente, razões para entender a credibilidade do princípio da razão e da ciência em detrimento do não-questionamento das coisas (fé). A verdadeira virtude é questionar.


sábado, 17 de dezembro de 2011

Qual a diferença entre a vida de uma alface e a de uma vaca?


Escrevi diversos artigos que abordam essa área da Filosofia tão importante que é a Ética. Presumi, contudo, que não era necessário me aprofundar nessa questão da valoração da vida, mas devido à insistente comparação dos opositores aos movimentos em defesa dos animais entre a vida de uma alface e a vida de uma vaca, porca, cavalo, etc., senti-me obrigado, por mais massante que seja, a me voltar para esse tema. Considero cansativo por não acreditar que quem levanta uma questão dessas esteja sendo intelectualmente honesto, salvo algum caso de muita ingenuidade.

Na postagem "Dessacralizando a vida humana", defendi que não é racional o argumento religioso de que a vida do ser humano é diferente por ser sagrada. A partir disso, precisamos nos perguntar qual é o tipo de vida que deve ser levado em consideração por intermédio da compreensão dos seus interesses. Se, à primeira vista, parece lógico que uma alface tem vida e que somente por isso ela deve ser preservada e seria, do ponto de vista utilitarista, tão antiético comê-la quanto comer um boi, essa afirmação mostra-se absurda quando minimamente questionada. Os animais senscientes que evoluíram, ao longo da história desse planeta, em paralelo com a espécie humana, têm um sistema nervoso semelhante ao nosso, tendo casos, inclusive, de sistemas nervosos ainda mais desenvolvidos do que o da espécie humana. Partindo desse fato, vamos às evidências: o que faz com que seja um imperativo moral para todos os seres humanos o respeito mútuo, torna-se também "obrigatório", se formos intelecutualmente honestos e não manipuladores de argumentos, alastrá-lo para todas as espécies que possuem esses atributos. Isso foi explanado por mim em postagens anteriores, como em "Especismo", "Condições de igualdade", "A Ética Prática", "Singer e a moralidade", dentre outros, e por esse motivo esses temas específicos não serão aprofundados na presente postagem. Se temos interesses na preservação do nosso corpo, em sentir-mo-nos saciados, não sentirmos dor, etc., parece-nos evidente que esses animais que reagem a estímulos e têm consciência de si também possuam estes mesmos atributos. Quando uma galinha ouve um barulho de passos o qual ela está acostumada a ouvir antes de receber milho, evidencia-nos ter memória; quando um cão grita e foge quando leva uma pancada, evidencia-nos dor, e assim o é com membros da nossa própria espécie. Do ponto de vista racionalista, não temos condições de ter sequer noção do que uma outra pessoa é capaz de sentir, ou sequer que outra pessoa seja capaz de pensar. Descartes aprofundou essa abordagem e concluiu que a única verdade que ele considerou irrefutável era a própria existência e nada mais. E que essa existência era um ser que pensa, mas não pode ir além disso; não é capaz de entender o que se passa na alteridade. E é aí que entra a questão da experiência, ou da empiria. Da mesma maneira que só através de evidências podemos pressupor que uma outra pessoa sente dor, mesmo que seja impossível saber se a intensidade da dor que outra pessoa sente seja a mesma que nós sentimos, podemos fazê-lo com os animais observando seu comportamento. Não parece razoável que alguém realmente acredite que uma alface arrancada da terra possa sofrer tanto quanto um boi sofre numa tourada de Madrid.

Um dos grandes problemas que temos em relação à Ética é a "coisificação" de tudo que não é humano, e nisso incluem-se os animais. As razões para isso, ao longo da história são muitas, e as religiões monoteístas infelizmente ajudaram a difundir que o homem é o senhor da criação e que tudo o que está para além da espécie humana só serve para servir ao próprio homem. Esse ponto de vista tem sido trágico para o Meio Ambiente e essa conta acaba voltando para todos nós. É um engano imaginar que podemos ter vantagens num ponto de vista que faz com que a presença do homem no planeta seja como uma erva daninha para uma árvore que não consegue frutificar. Contudo, há um novo paradigma no ar: o Biocentrismo, que reflete um novo estágio na evolução humana do ponto de vista moral. A maioria das populações humanas de hoje não têm mais necessidade de causar dor e sofrimento a outras espécies para sobreviver, e a saciedade da fome de um dia não justifica o sacrifício de uma vida inteira nesse nosso contexto global atual. Ainda mais trágico se torna quando imaginamos que a morte é apenas uma pequena parte de toda uma vida de privações e agonia.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

"Cogito, ergo sum"

A questão da existência talvez seja uma das mais enigmáticas dentre as questões fundamentais da vida. Não faz sentido crer que eu não existo se eu penso, então a angústia proveniente da dúvida absoluta muitas vezes pode nos fazer admitir certezas prontas e acabadas; certezas estas, contudo, que também são dignas de investigação.

A semente da dúvida, plantada no nosso inconsciente, pode nos trazer frutos - um alento para a investigação racional. A coragem é latente e é condição necessária para tal, onde o "viajante" goza num orgasmo intelectual, ainda que tenha descoberto ainda mais perguntas do que respostas.

A questão da existência passa pela consciência, já que se alguma coisa existe, pode-se partir do princípio de que aquele que pensa de fato produz alguma coisa, donde é factual o próprio pensamento em si e, portanto, aquele que o detém é igualmente factual, ou seja: existe.

Essa seria a primeira certeza absoluta no combate ao relativismo, se as coisas fossem assim tão simples. É difícil duvidar da própria existência quando aquele que é ato percebe que alguma coisa acontece no que denomina-se vida. A ausência de possibilidade de uma gnose, nesse caso, relacionar-se-ia com a morte, ou simplesmente a idéia do nada, uma ausência sem passado nem futuro.

A existência deveria ser, para nós, algo absolutamente irrefutável e a angústia dessa impossibilidade remonta o drama da finitude. Há uma forçosa relação de parentesco onde as conseqüências e o fim é sempre mórbido: ainda que a existência seja factual, em breve ela deixará de sê-lo.

Não há escapatória para a não-existência, e ainda que o pensamento seja um alento de esperança para a possibilidade de existirmos, o sentido das coisas precisa ser urgentemente importado para que seja possível suportar a dúvida absoluta e a angústia de pensar a existência.

Obs.1: Tenho evitado "papagaísmos", então o leitor querendo saber o que diz especificamente Descartes ou a História da Filosofia em geral, recomenda-se verificar na fonte.
Obs.2: Dane-se a "reforma" ortográfica.




Uma pequena historinha (com H). Clique para ampliar!




quinta-feira, 4 de junho de 2009

Sobre o ceticismo contemporâneo

A antropologia filosófica tem um quê de metafísica dentro do que se defina por antropológico; investiga a estrutura essencial do homem. O homem, por sua vez, conduz a especulação filosófica, já que todos os juizos nossos são necessariamente juizos humanos, provenientes de reflexões necessariamente humanas.

O modo de existir e de ser torna o homem acessível às realidades investigadas pela filosofia, e a transcendem no modo em que tudo parte de uma perspectiva humana. O ego, nesse caso, torna-se fundamental para essa concepção, já que ninguém pode sentir fora de si ou saber com exatidão como é a dor ou a impressão que outrem teve sobre uma mesma ação ou objeto. De fato, quando nos damos conta da igual limitação da própria linguagem, que é mera tradução dos nossos próprios pensamentos, nos pegamos numa situação de extrema limitação do entendimento. Na própria Filosofia da Arte temos que um mesmo objeto de apreciação tem diversas interpretações num mesmo homem – desde que em momentos distintos – o que diremos, então, de uma sensação externa a nós? Segundo Miguel Eugênio Almeida, da UEMS, “a concepção da língua como produto histórico-social implica, antes de tudo, a dimensão do homem como ser de linguagem e como ser social, no contexto da Antropologia Filosófica. O homem revela-se e revela a realidade do mundo perante a linguagem”. Ou seja, Ao relacionarmos a História da Linguagem com a Filosofia, estamos buscando o princípio do Ser; na Antropologia Filosófica, indagamos a posição do homem no mundo. Assim, a linguagem compreende a relação do homem com todas as coisas. A linguagem envolve o Ser em toda a sua plenitude, como diria Heidegger: a linguagem é a casa do ser. Isto é, o Ser está na linguagem e vice-versa. Tudo que o homem diz, faz ou pensa está presente à linguagem. É pertinente a relação da mesma (linguagem) com toda produção cultural humana. Trabalhamos mitos de entendimento a todo o tempo, pois não temos condições alguma de termos idéia de como as coisas são de fato – a coisa em si. Sentimos a necessidade de confiar na “ciência”, mas ela própria baseia-se na observação de causas e efeitos, a partir de estatísticas. Eis o método científico, que é o primeiro a ser incapaz de proporcionar respostas sobre a coisa em si. O próprio fato de confiarmos tanto na ciência parte de um mito, já que o agente receptor da informação não participa do método científico empregado para a aquisição dos seus resultados.

O que dizer, também, sobre o autoconhecimento? A frase do oráculo de Delphos, atribuída comumente a Sócrates, por tê-la proferido, permanece até hoje perturbadora. Como poderemos estar tão preocupados com o conhecimento factual do mundo e das coisas ao nosso redor se não conhecemos a nós mesmos? E mais, se o próprio autoconhecimento é algo distante, qual o conhecimento real que temos do mundo? Isso também nos leva à clássica problemática da cognição a partir dos sentidos – empirismo. Como poderíamos confiar nos sentidos para a aquisição do conhecimento, se os próprios podem ser os primeiros a nos enganar? Com a nossa tecnologia atual, de fato, sabemos que há diversas informações ao nosso redor que simplesmente não são captadas por nossos órgãos, como infravermelho, bluetooth, lasers, sons em determinados graus de agudo, sinais de rádio, entre outros. E, se antes o antropocentrismo nos mostrou que o homem é a medida de todas as coisas, hoje temos uma tendência biocêntrica, com o respeito pela vida como um todo. Cada vez mais nos vemos isolados num universo que parece extenso demais para nossa diminuta consciência. Dados progressivos mostram que a cada ano que passa, aumenta a quantidade de pessoas céticas. Sem religião. Nessas estatísticas, estão inclusos teístas, mas também o estão os agnósticos e os ateus. O homem do século XXI está descrente. Na vasta imensidão em que ele se encontra, busca sentido para o mundo. E para a própria vida. Sua própria existência foi questionada. O relativismo que tanto irritava Descartes foi vencido a princípio com a afirmação do pensamento. Com o trunfo do “penso, logo existo”, essa seria a primeira verdade absoluta: nossa existência! Contudo, filósofos posteriores mostraram que a coisa não era bem assim. Voltamos à estaca zero. Nossa nova tendência está agora vinculada à “invenção” contemporânea da perspectiva do ‘si mesmo’ – soi même – que na modernidade e nos tempos anteriores à mesma era ausente.

No século passado, a humanidade promoveu duas grandes guerras, instaurou diferentes sistemas econômicos, tentou melhorar o modo de produção capitalista... mas esbarrou na própria limitação do ego. Estivemos, por fim, a beira de uma guerra nuclear durante a guerra fria e hoje tenta-se promover o consenso de que as guerras são abomináveis, em detrimento da diplomacia racional. Contudo, a tecnologia que tanto reverbera nossa capacidade inventiva, ainda não foi capaz de dar um sentido absoluto à existência. Se “a técnica”, realmente, “desumanizou o homem”, é para nós agora imperativo que reconheçamos nossas limitações, juntar nossos cacos e seguir em frente. Continuamos na estaca zero, inclusive nos perguntando o que é que de fato somos, como Sócrates, há dois milênios.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O tabu do suicídio

Inicio este blog falando sobre o suicídio, que é um tema que é tabu em todas as sociedades. Ainda que em casos específicos, como o dos estóicos, ou no caso do suicídio pela honra da família, como acontece desde os tempos primórdios da cultura japonesa, é um tema que causa espanto e controvérsias.


Os estóicos respeitavam o ato do suicídio. Era até recomendado para quando se pudesse decidir que a vida não tinha mais o porquê de ser vivida. Os estóicos suportavam as adversidades com calma e dignidade, mas também acreditavam que as circunstâncias da vida de um homem podia se degradar a tal ponto (seja devido a uma tragédia pessoal, à ruína e a subseqüente miséria, seja devido a uma doença dolorosa e terminal), que um suicídio indolor se tornava a coisa mais racional a fazer. Se, para Platão, o suicídio é uma injustiça praticada contra si mesmo, para Sêneca, “a vida não vale a pena ser comprada a qualquer preço. O essencial não é viver, mas viver bem”. O próprio Sêneca cometeria suicídio mais tarde. Aristóteles argumenta que ninguém pode ser agente e paciente de uma injustiça, portanto, a injustiça do suicida é para com a própria sociedade. Para Epicuro, o sábio deve ser alegre mesmo nos sofrimentos cruéis, o que para alguns reflete as próprias limitações que acometiam sua saúde. Um discípulo epicurista, Hegésias, certa vez questionou se “se a felicidade do homem consiste na soma de seus prazeres, e estes forem inferiores à soma de males que a vida lhe oferece, como não justificar o suicídio?”.


Zenão de Atenas é, de certa maneira, controverso na sua abordagem da fatalidade suicida, porém admite que em certos casos, o suicídio é justificável, já que, para ele, o homem deve viver conforme a Natureza (Logos). Portanto, deve deixar a Natureza seguir o seu curso. Mas, em certos casos, quando ato de virtude, pode o sábio escolher a hora que o Logos determinou... (perscrutando os seus desígnios). Sua linguagem há um misto de mitologia, mas exacerba bem a possibilidade das exceções em nome da honra.


Se na Antigüidade, as divergências a respeito do suicídio eram claras, na modernidade há uma tendência de ausentar de sentido o ato suicida. Descartes afirma que é claro que a vida oferece mais bens do que males, já que a vida é o suporte básico de todos os bens, sem a qual nenhum bem existe. Contudo, todos os bens são incertos, exceto a própria vida. Portanto, suicidar-se é fazer mau-uso do livre arbítrio. Spinoza, apesar de diferentes argumentos em relação à René Descartes, conclui no mesmo caminho no que tange ao seu fim, quando verbera que o desejo é a essência mesma do homem, isto é, o esforço pelo qual o homem tende a perseverar no seu ser. O princípio da virtude é o esforço para conservar o próprio ser. O suicídio não é um ato de virtude pois que visa a destruição do que foi a essência mesma do homem, seu poder e sua tendência fundamental. Portanto, para Spinoza, não pode haver virtude no ato de tirar a própria vida, noutras palavras, o ato suicida é um ato de covardia, já que significa a desistência de permanecer vivo. Voltaire comenta sobre os suicidas de forma lacônica – e até mesmo engraçada – quando resume que os suicidas são, simplesmente, “...uns ociosos ou gente que não sabe mais o que fazer”.


Rousseau alega que ninguém é completamente inútil, já que qualquer um dos homens seria útil à humanidade pelo simples fato de existir. Então, nesse caso, o suicida estaria cometendo um roubo contra o gênero humano, já que sempre fica uma boa ação por fazer. E tal ação, obviamente, teria sido feita pelo suicida – e só por ele. Kant leva um quê de complexidade à questão, quando afirma que “o suicídio não pode ser erigido em norma universal (em padrão para a espécie humana), é infração à Lei Universal, porque destrói o próprio sujeito da moralidade; o suicídio é usado como um fim em si mesmo, arbitrariamente, sendo um atentado à liberdade; é a própria negação do querer-viver da Natureza (o oposto da sintropia da vida). Essa visão kantiana do suicídio compartilha com Sartre na questão da falta de respeito ao livre arbítrio (“mau uso” do mesmo denota julgamento de valor). Dostoievski analisa a questão sem omitir uma reflexão, apenas afirma que aquele que se mata se coloca no lugar do próprio Deus.


Descendo os degraus da academia à sociedade comum, com pessoas simples, que simplesmente se horrorizam ao saber que aquela pessoa “tão promissora” cometeu suicídio, voltamos à realidade crua que ronda a vida, que é a morte. Por mais que se omita ou não o assunto do suicídio, o fato é que o homem sempre continuará senhor da sua vida – ao menos da decisão de continuar vivendo.