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quarta-feira, 3 de abril de 2013

A alfabetização científico-filosófica e a doutrinação das crianças



Uma das piores violências culturais que uma pessoa pode sofrer é, muitas vezes, involuntária. Trata-se da doutrinação mística/religiosa por parte de familiares ante a uma criança que ainda não tem a distinção cognitiva de pensar por si só. Além de ser eticamente condenável, é um abuso previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente no Brasil, onde toda a criança e adolescente tem direito à liberdade de crença (e, conseqüentemente, de descrença) e de escolher, quando o juízo próprio permitir, o seu próprio caminho.

As crianças se tornam, em grande parte, adultos que não tiveram a opção de observar o mundo com seus próprios olhos. Muitas vezes, logo ao nascer, o bebê ocidental já tem um crucifixo no alto da parede de seu quarto, dando aos visitantes claros sinais de qual doutrina o pequeno irá tirar sua visão de mundo. Isso não é muito diferente nas outras culturas, cada qual com seu deus ou deuses, haja vista que a religião é um aspecto fortemente ligado à cultura de seu povo. Ainda que os pais sejam de determinada corrente religiosa, é inadmissível, do ponto de vista moral, considerar razoável que seus filhos tenham sua liberdade tolhida desde a mais tenra infância. Dentro da malha intelectiva e cultural dos pais, aliadas à própria experiência de vida, pode-se considerar que tal imoralidade seja algo involuntário - há uma forte crença, do qual eles também são vítimas num ciclo vicioso, de que estão elevando os filhos à salvação - porém ainda assim imoral. Uma involuntariedade que muitas vezes é capaz de tolher e amputar o livre pensamento dos adultos do futuro, que deveriam ter a iniciativa própria de escolher seu próprio sistema de crenças ou até mesmo o abandono de todas elas, mediante a alfabetização científico-filosófica.

Quando as pessoas são alfabetizadas cientificamente e filosoficamente, a crença torna-se uma opção. Isso não quer dizer que todos que tenham uma sólida formação científica e filosófica abandonam todos os sistemas de crenças, é bom frisar. Apenas que a figura de deus e dos dogmas tornam-se apenas contingentes. A necessidade absoluta de uma crença mística qualquer só se torna fundamental quando não há outra saída razoável: o mundo é incrível e no não-entendimento das coisas, busca-se explicações mirabolantes no intuito de acalmar a alma. A religião cumpre esse papel mantendo as pessoas na ignorância - que todos temos - com o diferencial de que nesse caso a própria ignorância e a acomodação em explicações místicas sem sentido trate-se de uma virtude. Sair do nível místico ao investigativo pode significar um longo processo, mas é um amadurecimento extremamente compensador.

Não está sendo proposto aqui um caminho infalível ou uma verdade incontestável a respeito do que se deva crer ou não-crer. O que está sendo exposto é a defesa e o respeito ao livre pensamento e crença de todas as crianças, fazendo-se valer o Estatuto supracitado. Por mais que a visão mágica do mundo seja prazerosa para alguém, este mesmo alguém não tem o direito de julgar que seria o mesmo para outro - isso é um atentado à individualidade. Para o outro, o entendimento das coisas como elas são de fato podem fazer muito mais sentido - e ser igualmente maravilhoso.

sábado, 10 de novembro de 2012

A religião pode ser boa?

Nem sempre uma religião é algo maléfico, destruidor e insano; também nem todo religioso é um completo alienado, como defendem alguns descrentes. Na ânsia de demonstrar um ponto de vista, pode-se perder o bom senso e isso soa extremamente arrogante.

No meu ponto de vista, a religião não se torna má, por exemplo, quando não serve de norte para as escolhas da pessoa, quando a religião não faz com que a pessoa se contente em não entender o mundo e ainda acredite que isso seja uma virtude, quando a religião não é utilizada para praticar atos antiéticos na certeza de que isso será 'perdoado aos olhos de deus', quando a religião não sirva como imposição às crianças, que ainda não tiveram o direito de escolher o que vão seguir na vida, quando a religião não é utilizada para oprimir minorias, quando a religião da pessoa em questão não é utilizada para doutrinar aqueles que têm pontos de vista diferentes, enfim, quando a religião não tem influência direta nas decisões da pessoa, não percebo mal algum. A religião só se torna má quando a pessoa passa a agir baseando-se em suas crenças e é convencida de que os valores se invertem quando se tem fé, não sendo necessário sentido ou evidências para que se tome algo como verdade e ainda considerar que tal situação seja algo virtuoso...

A religião também pode se tornar má quando, ao invés de doarmos os nossos excessos às instituições sérias de caridade, como a Oxfam, doamos para um pastor ou padre que usa a maior parte dos rendimentos para reinvestir na própria igreja, que muitas vezes é confundida com um negócio empresarial - com a vantagem de não pagar impostos. Em 'A vida que você pode salvar', Peter Singer, que é ateu, mostra através do princípio da igual consideração de interesses que nós temos um dever moral de colaborar com os mais necessitados, sendo a maneira mais eficiente de fazê-lo pesquisando quais são as instituições de caridade sérias e eficientes, para que o dinheiro doado seja bem empregado. Infelizmente, os religiosos em geral são convencidos de que melhorarão o mundo quando investem na própria igreja, que 'trará mais almas' para Jesus, Shiva, Buda ou Alá, ao invés de pensar em contribuir de fato e diretamente com aqueles que podem estar a milhares de quilômetros de distância e cujas dores, sonhos e anseios são tão importantes quanto qualquer outro. A doação, quando se aceita o princípio da igual consideração de interesses, se torna algo imperativo categórico e isso independe de crença em almas ou deuses.

Vejo que o pior legado da religião são os códigos de conduta, um guia moral para a vida. Não há Ética ou Moral nas assertivas religiosas, já que a Ética é algo em contínua construção pelo exercício do princípio da razão; nas religiões, ao contrário, há um guia pronto e acabado. Os mitos, como um todo, tiveram sua utilidade na época em que foram criados, mas tais conceitos vistos num mundo contemporâneo em que desenvolvemos Filosofia e Ética, são por demais primitivos. A Ética substituiu o que seria um 'ditador universal', como diria Christopher Hitchens, que poderia punir aqueles que não agissem da maneira como ele disse através de algum homem iluminado. 

Os códigos primitivos das mitologias seguiam os costumes de suas épocas e podem ter sido úteis naquele tempo, mas hoje em dia soa muitas vezes como algo absurdo e fora da realidade. Estamos na Era da Razão e é importante concebermos que na evolução do pensamento humano, a Ética cobra seu espaço.

 Bertrand Russell, filósofo vencedor do Prêmio Nobel de 1950

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Sobre o ceticismo contemporâneo

A antropologia filosófica tem um quê de metafísica dentro do que se defina por antropológico; investiga a estrutura essencial do homem. O homem, por sua vez, conduz a especulação filosófica, já que todos os juizos nossos são necessariamente juizos humanos, provenientes de reflexões necessariamente humanas.

O modo de existir e de ser torna o homem acessível às realidades investigadas pela filosofia, e a transcendem no modo em que tudo parte de uma perspectiva humana. O ego, nesse caso, torna-se fundamental para essa concepção, já que ninguém pode sentir fora de si ou saber com exatidão como é a dor ou a impressão que outrem teve sobre uma mesma ação ou objeto. De fato, quando nos damos conta da igual limitação da própria linguagem, que é mera tradução dos nossos próprios pensamentos, nos pegamos numa situação de extrema limitação do entendimento. Na própria Filosofia da Arte temos que um mesmo objeto de apreciação tem diversas interpretações num mesmo homem – desde que em momentos distintos – o que diremos, então, de uma sensação externa a nós? Segundo Miguel Eugênio Almeida, da UEMS, “a concepção da língua como produto histórico-social implica, antes de tudo, a dimensão do homem como ser de linguagem e como ser social, no contexto da Antropologia Filosófica. O homem revela-se e revela a realidade do mundo perante a linguagem”. Ou seja, Ao relacionarmos a História da Linguagem com a Filosofia, estamos buscando o princípio do Ser; na Antropologia Filosófica, indagamos a posição do homem no mundo. Assim, a linguagem compreende a relação do homem com todas as coisas. A linguagem envolve o Ser em toda a sua plenitude, como diria Heidegger: a linguagem é a casa do ser. Isto é, o Ser está na linguagem e vice-versa. Tudo que o homem diz, faz ou pensa está presente à linguagem. É pertinente a relação da mesma (linguagem) com toda produção cultural humana. Trabalhamos mitos de entendimento a todo o tempo, pois não temos condições alguma de termos idéia de como as coisas são de fato – a coisa em si. Sentimos a necessidade de confiar na “ciência”, mas ela própria baseia-se na observação de causas e efeitos, a partir de estatísticas. Eis o método científico, que é o primeiro a ser incapaz de proporcionar respostas sobre a coisa em si. O próprio fato de confiarmos tanto na ciência parte de um mito, já que o agente receptor da informação não participa do método científico empregado para a aquisição dos seus resultados.

O que dizer, também, sobre o autoconhecimento? A frase do oráculo de Delphos, atribuída comumente a Sócrates, por tê-la proferido, permanece até hoje perturbadora. Como poderemos estar tão preocupados com o conhecimento factual do mundo e das coisas ao nosso redor se não conhecemos a nós mesmos? E mais, se o próprio autoconhecimento é algo distante, qual o conhecimento real que temos do mundo? Isso também nos leva à clássica problemática da cognição a partir dos sentidos – empirismo. Como poderíamos confiar nos sentidos para a aquisição do conhecimento, se os próprios podem ser os primeiros a nos enganar? Com a nossa tecnologia atual, de fato, sabemos que há diversas informações ao nosso redor que simplesmente não são captadas por nossos órgãos, como infravermelho, bluetooth, lasers, sons em determinados graus de agudo, sinais de rádio, entre outros. E, se antes o antropocentrismo nos mostrou que o homem é a medida de todas as coisas, hoje temos uma tendência biocêntrica, com o respeito pela vida como um todo. Cada vez mais nos vemos isolados num universo que parece extenso demais para nossa diminuta consciência. Dados progressivos mostram que a cada ano que passa, aumenta a quantidade de pessoas céticas. Sem religião. Nessas estatísticas, estão inclusos teístas, mas também o estão os agnósticos e os ateus. O homem do século XXI está descrente. Na vasta imensidão em que ele se encontra, busca sentido para o mundo. E para a própria vida. Sua própria existência foi questionada. O relativismo que tanto irritava Descartes foi vencido a princípio com a afirmação do pensamento. Com o trunfo do “penso, logo existo”, essa seria a primeira verdade absoluta: nossa existência! Contudo, filósofos posteriores mostraram que a coisa não era bem assim. Voltamos à estaca zero. Nossa nova tendência está agora vinculada à “invenção” contemporânea da perspectiva do ‘si mesmo’ – soi même – que na modernidade e nos tempos anteriores à mesma era ausente.

No século passado, a humanidade promoveu duas grandes guerras, instaurou diferentes sistemas econômicos, tentou melhorar o modo de produção capitalista... mas esbarrou na própria limitação do ego. Estivemos, por fim, a beira de uma guerra nuclear durante a guerra fria e hoje tenta-se promover o consenso de que as guerras são abomináveis, em detrimento da diplomacia racional. Contudo, a tecnologia que tanto reverbera nossa capacidade inventiva, ainda não foi capaz de dar um sentido absoluto à existência. Se “a técnica”, realmente, “desumanizou o homem”, é para nós agora imperativo que reconheçamos nossas limitações, juntar nossos cacos e seguir em frente. Continuamos na estaca zero, inclusive nos perguntando o que é que de fato somos, como Sócrates, há dois milênios.