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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Filosofia Clínica: uma Filosofia Aplicada



A Filosofia Clínica parte do pressuposto de que não há pressupostos na existência humana. Investe no princípio de unicidade humana, em que o individual é valorizado em detrimento dos chavões comuns e da "ditadura" subliminar de uma ética comportamental para todas as pessoas.

Inicialmente, os estudos da personalidade do partilhante, como é chamado aquele que leva suas questões existenciais, angústias, etc., ao Filósofo Clínico no consultório, são extraídos a partir da historicidade do indivíduo, que é estudada minuciosamente para que haja uma espécie de "banco de dados" que possam ajudar o profissional a entender as motivações do partilhante, seu universo, sua estrutura de pensamento, suas angústias, suas crenças, enfim, tudo o que é pertinente e que seja possível entender através do conhecimento da historicidade do partilhante.

Após o recolhimento da historicidade do partilhante, o filósofo clínico iniciará o Exame das Categorias, que determinará a localização existencial da pessoa. Assim, os aspectos gerais em relação à sua cultura, crenças, ambiente, etc., serão entendidas pelo terapeuta. As categorias utilizadas na prática clínica derivam das categorias aristotélicas e são pragmáticas e complementadas a outras funções, à medida que são utilizadas para a obtenção do melhor daquele que traz suas angústias ao consultório, o partilhante. Elas são as seguintes: assunto, circunstância, lugar, tempo e relação. A categoria “assunto” aborda o assunto imediato (aquele que efetivamente leva o partilhante ao consultório) e o assunto último, que são as verdadeiras origens do problema, as causas mais profundas, que podem ou não relacionar-se com o assunto imediato. A categoria “circunstância” permite ao filósofo clínico entender o que se passa ao redor do partilhante em dado momento, as suas sensações, vivências, etc. A categoria “lugar” provê ao filósofo clínico a relação organoléptica do partilhante com o ambiente em que o mesmo se situa. Esse contexto sensorial pode estar ligado a diversos fatores, como uma cidade, uma situação e/ou diversos outros elementos. Já a categoria “tempo” trata tanto do tempo “objetivo”, efetivamente a cronologia ‘oficial’, do relógio e do calendário, quanto do tempo “subjetivo”, que relaciona-se com a pessoa de forma mais complexa, pois não está vinculado a priori com a necessidade de precisão temporal; não há quaisquer marcos que possam delimitar as fronteiras das fases em que a pessoa se situe no tempo. Um exemplo de tempo subjetivo é a abordagem de Santo Agostinho sobre o assunto: ele argumenta que o passado e o futuro inexistem, e que o presente é o “agora que passa”, dando-nos uma sensação de urgência e efemeridade. A categoria “relação”, por sua vez, busca fazer o “link” entre as circunstâncias narradas pelo partilhante com os significados que as mesmas possam ter, buscando com isso entender quais são os aspectos mais relevantes de tal narrativa. A importância será notada pelo terapeuta à medida que esses dados vão se mostrando menos ou mais importantes para o partilhante.

Outro elemento fundamental da Filosofia Clínica é o da Estrutura do Pensamento, que é absolutamente tudo que está na pessoa, como as emoções, os juízos, o raciocínio, seus anseios... A partir desses conceitos fundamentais, o filósofo poderá adiante elucidar seu entendimento a respeito do partilhante. Os elementos serão avaliados pelo terapeuta, baseado, sobretudo, na historicidade do partilhante, e o primeiro terá que discernir a devida importância de cada um, pois tudo se baseia na narrativa do partilhante e é impossível sabermos, com exatidão, todos os elementos que habitam aquela pessoa.

A Filosofia Clínica pensa a questão do Ser, e vai para além dos simples psicologismos quando adentra em questões existenciais. Há uma desconstrução, necessária, de conceitos "fechados" da medicina, como o conceito de "Loucura". Assim como a própria natureza do princípio da razão, que rege o bom fazer filosófico, a prática clínica procura entender o ser humano holisticamente, indo para além daquilo que poderia ser estigmatizado. A prática clínica possibilita ao terapeuta auxiliar o partilhante à medida que entende os seus pormenores, compreendendo sua própria história, sua forma de pensar e os conceitos e pré-conceitos nos quais se baseia sua performance para lidar com as questões fundamentais da vida.

Em suma, a Filosofia Clínica é uma maneira de fazer terapia a partir dos dois mil e quinhentos anos de História da Filosofia, sendo ela mesma uma Filosofia da Práxis. A terapêutica filosófica abstém-se dos preconceitos, das "loucuras" e patologias de praxe e certamente pode contribuir para que a existência do partilhante - e do terapeuta - na Terra seja mais prazerosa e, conseqüentemente, faça mais sentido.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Filosofia e Felicidade

Raul Seixas falou, certa vez: “É pena eu não ser burro. Assim, não sofria tanto”. Partindo do princípio que o próprio Raul fosse um cara inteligente, para efeito da questão, será que realmente a sabedoria priva o homem da felicidade? Há sentido no que se fala por vezes que uma vida alienada é mais prazerosa de ser vivida?

Muito se diz a respeito. A opinião predominante sobre quando se refere à relação “conhecimento/sabedoria x felicidade” é de que o alienado tem mais hipóteses de viver uma vida tranqüila, em relação àquele buscador da verdade. A partir do momento em que não se conhece o problema, não se vive o mesmo. As pessoas costumam agir tão-somente de acordo com os resultados. É um utilitarismo às avessas, já que pouco se pensa a respeito do preço que se paga para atingi-los.

Todos nós somos alienados, mas em graus e assuntos diferentes. Falo da alienação como a ausência de conhecimento a respeito de algo, e não no sentido marxista. No mais alto grau, somos alienados a respeito de tudo, já que não é possível o conhecimento factual das coisas em si. Mas não é essa a abordagem necessária quando se questiona a alienação no sentido de uma pessoa que não questiona a si ou as coisas e acontecimentos ao redor de si. Essa é uma outra faceta.

Suponhamos uma pessoa que considere que sua vida ganhou sentido quando abençoada por um pastor corrupto de uma igreja hipotética, já que pastores corruptos não existem. Essa pessoa era entupida de dívidas, alcoólatra, sua mulher era prostituta e seu filho usava drogas. Esse homem – vamos chamá-lo Josué – ouviu falar que seu vizinho se regenerou quando “aceitou Jesus”, e decidiu, num momento de desespero, conhecer o Pastor “João”, que supostamente fizera maravilhas pelo seu vizinho. Pois bem, nosso amigo Josué vai com a cabeça completamente aberta para o culto, ele quer mudar de vida. No teatro, o pastor vende-lhe definitivamente a idéia do pecado e do demônio e arrebanha-o entre suas ovelhinhas. Josué passa a destinar uma parte de seus escassos rendimentos à Igreja, e a partir deste momento sua fé destina-o a parar de beber. Ele jura que foi agraciado pela Igreja e jamais conseguiria tal façanha sozinho. E isso não é tudo. Seu filho, que estava metido em drogas começa a freqüentar o culto e sua mulher parou de rodar a bolsa na rua. Concomitantemente, Seu Josué abdica de si e de suas individualidades para entregar sua alma a Deus. Ele não é mais Josué, é uma ovelhinha de Cristo. Está quase comendo capim, de tão devoto. Devido ao seu novo estilo de vida, não toma mais “mé” e tem mais tempo – arruma até um emprego fixo e diz que deve tudo graças ao Pastor João. Nesse nosso exemplo, podemos considerar que o Seu Josué foi bem sucedido, já que a vida era um caos pleno. Ele estava com o pé na cova e sua família não tinha rumo.

Contudo, afastar-se da realidade também tem seu sentido questionado. Para Siddharta – o Buda – “todo remédio é veneno”. E o preço desse remédio é alto. Os efeitos colaterais envolvem uma cultura inteira e ele agora nega a si para servir ao seu amigo imaginário (ainda que a hipótese teísta seja um fato, é pretensioso por parte da religião definir sua natureza). O que pode levar à “exaltação” também pode envenenar. O fenômeno atual a respeito do ceticismo religioso leva a dois extemos – acreditar “em tudo”, referindo-se à crença exagerada e sem um “filtro” de informações comparadas e imparciais, aumento e cultivo do misticismo e crendices em geral; ou um ceticismo que gera a crítica que produz o tal filtro que seleciona o que será aceito pelo entendimento como mais próximo do factual (já que quem vê muita coisa, tende a não crer em nada, assim como diz-se que surgiram os primeiros céticos – os mercadores viajantes, que conheciam diversas culturas). Na prática, temos visto elevar os números de estatísticas tanto em relação aos fundamentalistas quanto aos agnósticos e/ou ateus. No nosso exemplo, Seu Josué jura que o Pastor foi responsável por suas conquistas e pagará por isso o restante de sua vida, além de negar a humanidade que existe em si e até mesmo o que caracteriza sua individualidade. É óbvio que estou usando um exemplo, e por sê-lo, é bem específico; não significa que este seja o único exemplo de alienação no uso corrente da palavra.

Certa vez, li que “mais vale um Sócrates infeliz do que um porco feliz”. Mas, ainda que isso seja verdadeiro, por que diabos o Sócrates precisa ser infeliz? Não é o próprio conhecimento que liberta a alma? O hábito de buscar entender o que se passa ao redor pode nos livrar de situações complicadas. Não me refiro ao entendimento, mas à busca – ela é o que temos de real. Aprender a viver, aprender a morrer, encontrar subsídios que façam sentido para o aqui e agora também dão qualidade de vida. Viver o eterno presente é ser intenso. E vida com qualidade é mais importante do que o tempo pelo tempo. Para Aristóteles, dentre as possibilidades de felicidade, uma delas é através do conhecimento, como Filósofo. A Filosofia parte da necessidade da busca de um sentido, e divagar nesses caminhos também proporciona um gozo intelectual.


O “presente é o agora que passa”, segundo Santo Agostinho, e nesse sentimento de urgência não há desespero. Apenas a noção de que o prazer é importante e necessário. E quando percebermos a morte, entregar-nos-emos com a sensação de dever cumprido. Como no epicurismo, se por um acaso deixarmos de existir, significa que o sofrimento também será ausente. Nossa tarefa nesse mundo poderia pode ser assim definida: sejai feliz! – eis o verdadeiro sucesso.