sábado, 3 de abril de 2010

Peixe na "Semana Santa": questões éticas ignoradas pela mídia

Na Semana Santa, a celebração da morte e ressurreição de Jesus divide o espaço com o boom do comércio e consumo de carne de peixes. O feriadão em questão, em especial a Sexta-Feira Santa, é a época em que mais se comercializa e se consome esse tipo de carne no ano. As feiras, peixarias e supermercados de todo o Brasil lotam-se com milhões e milhões de peixes e uma multidão os compra para comê-los. A sociedade curte muito e a mídia incentiva, mas, aos olhos da natureza e da ética do respeito à vida animal, tais comportamentos se fazem perigosos e condenáveis.

A imprensa que fomenta a morte dos peixes

A imprensa, alienando a população de todos os problemas éticos e ambientais causados pela pesca, mostra com satisfação a prosperidade temporária dos vendedores de peixe (morto), ignorando e/ou omitindo completamente que é essa mesma fartura que vem causando um dramático declínio na população de grande parte das espécies “pescáveis”, se não todas, em todos os mares e oceanos do planeta.

As notícias sobre queda e extinção local de muitas espécies de peixes multiplicam-se, mas, de forma quase irônica, as relacionadas ao comércio e consumo de “pescado”, sempre acríticas, ganham destaque, muitas vezes nos mesmíssimos jornais, telejornais ou sites, durante o feriado cristão. Notas sobre preço, disponibilidade e demanda e receitas culinárias imperam nos dias anteriores à Sexta-Feira Santa, dia em que a carne vermelha é vedada da mesa dos cristãos – por motivos meramente religiosos, nada relacionados com ética, compaixão ou não-violência.

E os fatos de que os peixes agonizam muito em asfixia depois de retirados da água e poderiam ter suas vidas poupadas e respeitadas graças à existência do vegetarianismo simplesmente inexistem perante o olhar dessa mídia.

A crise ambiental que a Sexta Santa ajuda a piorar

Com todo esse estímulo da TV, dos jornais e dos portais online e embalado pela tradição, o povo se esbalda com a carne aquática no feriado. Ignora-se completamente que o costume cristão vem ajudando muito, para não dizer fundamentalmente, para a já citada crise populacional dos peixes nas vastas águas da Terra. Para se ter uma ideia dessa que se mostra como uma calamidade ecológica, alguns dados:

- A pesca em grande escala está ameaçando nada menos que 75% da população de peixes do mundo, segundo estudo da WWF de 2008

- Na faixa territorial oceânica brasileira, 80% das espécies mais procuradas por pescadores estão ameaçadas de extinção por causa da sobrepesca e da pesca por redes de arrasto

- 80% dos bancos de pesca mundiais estão em declínio ou esgotados

- A pesca hoje está num ritmo duas a três vezes superior à capacidade de regeneração das populações aquáticas das águas do planeta. Em tal ritmo, todas as espécies “pescáveis” terão desaparecido em 2050

- A população de peixes está diminuindo consideravelmente em diversos locais do mundo onde é pescada. A população de atum-azul diminuiu 10% em relação a meados do século 20 no Oceano Atlântico e no Mar Mediterrâneo. Na costa da Escandinávia, já foi extinta. Nas fazendas de aquicultura da Europa, caiu 25% em apenas um ano

- Pesca e pecuária estão interligadas: rações preparadas a partir de peixes representam 37% do total de peixes retirados anualmente dos oceanos; 90% dessa porcentagem são trans-formados em óleo e farinha de peixe. Dessa farinha e óleo, 46% são utilizados como alimento na aquicultura de peixes e outros 46% são destinados para ração da pecuária suína e aviária

- Das 30 espécies de tubarões pelágicos, que vivem em alto-mar, 11 correm em risco de extinção por causa da pesca que captura ora tubarões inteiros, ora suas barbatanas (nesse caso os tubarões são abandonados à morte depois de mutilados)

- A pesca profunda com redes de arrasto é capaz de levar embora, junto com os animais "pescáveis", até 4 toneladas de corais, o que vem contribuindo para a ameaça mundial que os recifes de coral estão sofrendo

Sofrimento dos peixes e ética

Também merece ser considerado o sofrimento desses animais quando são içados da água. Basta ver a força e o frenesi com que o peixe se debate depois de capturado, mais o movimento de sua boca quando já perdeu suas forças. Sua agonia é algo escancarado, visível a todos, mas é tratada com muita naturalidade e insensibilidade pelo pescador e totalmente ignorada por quem come esses bichos.

Mas felizmente há como evitar causar esse sofrimento intenso: a existência do vegetarianismo, com sua cada vez mais comprovada (aqui há um exemplo) sustentabilidade nutricional, torna o consumo de carne de peixe totalmente dispensável e nos permite respeitar o direito à vida dos peixes e evitar que eles sofram em nossas mãos. Aliás, todos os animais, como seres sencientes (exceto poríferos), têm o direito à vida e ao respeito ao seu consciente interesse de viver, e sua morte para consumo alimentar pode ser evitada com a adoção da alimentação vegetariana.

Mas tudo isso não é nada perante a imprensa e a sociedade, que desconhecem esses direitos e a capacidade dos peixes de sofrer e continuam cegamente comendo suas carnes. Promovem, sem nenhuma preocupação, a agonia tanto senciente quanto ecológica desses bichos. O vegetarianismo não é reconhecido pelos veículos de comunicação nem pela maioria dos cristãos como meio de se fazer uma Semana Santa iluminada pelo respeito e compaixão à vida – pelo contrário, levam adiante a crença tácita de que esses animais não são dignos de ter suas vidas preservadas e recusam-se a incluí-los em sua ética de respeito ao outro. Aliás, no feriadão o vegetarianismo e os pratos livres de animais praticamente deixam de existir na mídia.

Consideração final

A alienação ambiental, a ética seletiva e o desamor perante formas sensíveis de vida são velhos costumes na semana santificada por uma religião que ironicamente prega a caridade e o amor ao próximo. Nesta época são praxe os pecados contra a vida e a natureza. E a cristandade, apoiada pela tradição e pela comunicação de massa, caminha tornando a biosfera cada vez mais desequilibrada e escassa de fauna e causando sofrimento e morte despreocupadamente a bilhões de animais. Enfim, tornando o mundo pior.

Créditos: http://consciencia.blog.br/

segunda-feira, 15 de março de 2010

Sartre - "A existência precede a essência"

Na foto: Simone de Beauvoir, Sartre e Che Guevara, em 1960.

A existência precede a essência? Levando em conta que de fato nós existimos e se considerarmos isso um problema resolvido, poderíamos afirmar que possuímos alguma essência?


Definiríamos a essência como algo que seja imutável e que nos caracterize desde os nossos primórdios; algo que faz com que eu seja eu e não o outro; algo que sem ele eu seria uma outra coisa qualquer; algo que o tempo não seja capaz de perecer antes da morte (mas que talvez até persista além dela na memória dos outros sobre mim).

Será que não há, necessariamente antes da existência, uma essência que possa me definir enquanto tal? Ora, se é possível alguma definição qualquer que seja, é por que a essência já está ali, presente; não como sendo algo extrínseco, mas que seja eu próprio, não o todo, mas a parte que é necessária para me caracterizar. Nesse caso, supõe-se que há um meio-termo entre não-existência e essência, ou seja, um momento em que a minha existência não me caracteriza, e então nesse meio-termo eu existo tão-somente enquanto coisa.


Mas, a partir de que momento desenvolve-se minha essência? Se ela é desenvolvida, é provável que seja mutável. Então, o que faz da minha “essência”, de fato uma essência, se ela própria está em desenvolvimento? Se a minha essência com o tempo se modifica, por que ela me caracteriza de forma única se ela também modificou-se comigo?

Humor - Jesus e a morte!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Peter Singer, aborto e eutanásia



Há uma harmonia nas concepções de Peter Singer a partir da universalizabilidade e da consideração de interesses, onde tudo se encaixa quando aceitamos as máximas que fundamentam os seus preceitos. Tal como o estreitismo entre a questão do aborto, no autor, com a questão da eutanásia.

A eutanásia tem sido freqüentemente debatida hoje por conta, em grande parte, das novas tecnologias e que, através de seus aparatos, consegue estender a vida em estado miserável e/ou vegetativo até as últimas conseqüências, e o objetivo disso torna-se questionável nos casos em que manter uma vida em estado miserável só virá a trazer sofrimento ao doente e à família, e no estado vegetativo, será somente a família o alvo do padecimento, já que o próprio paciente já não tem qualquer capacidade de entender o que se passa, de sentir, capacidade de discernimento, enfim, o paciente encontra-se numa debilidade tão grande que nem mesmo mais sofre ou tem quaisquer tipos de prazeres.

A “eutanásia”, nos dicionários, é descrita como uma morte serena, sem sofrimentos. Há uma ligação íntima da eutanásia, neste sentido, e o suicídio desde os tempos primórdios da História da Filosofia. Ambos os casos estão relacionados com a autonomia daquele agente que sofre: só ele será capaz de decidir para si entre a vida e a morte – e nesse caso encaixar-se-ia com o conceito de “eutanásia voluntária” em Singer.

A concepção de eutanásia, que geralmente era tolerada ou incentivada pelos antigos, por diversos motivos como alívio da dor e até mesmo em nome da honra, vai mudando com o tempo e coincide com o avanço do cristianismo no Ocidente e a questão da sacralização da vida volta a ganhar destaque nesse contexto. Em geral, não há sentido simplesmente em manter uma pessoa cuja morte é certa e a dor agonizante, viva. O paradigma que estamos vivendo em relação ao direito à vida remonta a questão cristã do caráter sagrado da vida humana, donde uma vida, que é dada por Deus, deverá ser mantida custe o que custar, ou seja, até suas últimas conseqüências. Acontece que os novos métodos de preservação da vida em determinados casos terminais faz necessário o questionamento destes dogmas religiosos, em prol do alívio do sofrimento daqueles que, amiúde, nem sequer têm o direito de escolher entre a dor e a morte. As novas tecnologias nos apresentam novos questionamentos a respeito de ética e moralidade – e é aí que se encaixa a Ética Prática com todo o seu arsenal filosófico que privilegia o pragmatismo da aplicabilidade do pensar filosófico e do pensamento lógico em prol da vida, contudo não de forma cega e a todo custo, mas “vida” até o momento em que haja sentido para que se denomine enquanto tal.

Segundo a revista Superinteressante edição 221, de 16 de dezembro de 2005, cuja capa trata de questões que envolvem a eutanásia, no Brasil a lei sobre esta questão se manifesta e encara como homicídio a eutanásia, o ato deliberado de apressar o fim de quem está morrendo. Nesse jogo entre o alívio da dor e a “tortura”, a ortotanásia, “a morte no momento certo”, é considerada omissão de socorro e tem pena de um a seis meses de prisão. Apesar disso, a ortotanásia é freqüentemente praticada. O médico retira os aparelhos e deixa o doente seguir o seu curso de morte. Trata-se do modo mais comum de morrer nas UTI’s pediátricas do Brasil. Dois estudos publicados em março de 2005 pela Revista Brasileira de Pediatria, sobre 167 casos ocorridos em 2002 nas principais UTI’s pediátricas do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais, mostram que pelo menos 36% das crianças morreram após a “limitação do suporte de vida”, expressão que reúne decisões como não entubar, não reanimar e até tirar o suporte vital.

O estudo observou que pelo menos 30% desses casos são omitidos ou reportados contraditoriamente nos hospitais. Mas há quem veja na própria legislação fundamentos para apressar a morte quando o tratamento só prolonga o sofrimento. O 1º artigo da Constituição assegura a dignidade da pessoa humana, e esse direito deveria ser estendido até os últimos momentos – é o que alega, por exemplo, Lívia Pithan, professora de Direito da USP.

Apesar da herança cristã de sacralização da vida humana, que leva a vida mesmo em sofrimento até as últimas conseqüências, o prolongamento da dor já foi condenado pela Igreja Católica, na pessoa do Papa Pio XII, que afirmou que “quando houver desesperança, os médicos não devem se valer de instrumentos extraordinários para prolongar indefinidamente a vida”.

Para Peter Singer, “quando abandonamos essas doutrinas sobre o caráter sagrado da vida humana, que caem por terra assim que são questionados, o que se torna horrível, em alguns casos, é a recusa em admitir que é preciso matar” (Ética Prática, pág. 185). Hoje em dia é que o termo “eutanásia” é utilizado para referir-se à morte daqueles que estão com doenças incuráveis e sofrem de angústia e dores insuportáveis. É uma ação praticada em benefício dos doentes e tem por finalidade poupar-lhes a continuidade da dor e do sofrimento. Singer inclui, porém, pessoas sem capacidade de decisão, onde a medicina aponta para uma vida de dor e privações caso estendida. Há três tipos de eutanásia. Ei-los:

* Eutanásia voluntária;

* Eutanásia involuntária;

* Eutanásia não-voluntária.

A eutanásia voluntária é quando o próprio paciente em questão tem ainda condições de pedir pela própria morte. A maior parte dos grupos que brigam por mudanças legais em relação à eutanásia referem-se à esse método.

Na eutanásia involuntária, a pessoa morta tem condições de consentir com a própria morte, mas não o faz, tanto por que não lhe perguntaram se quer morrer quanto por que lhe perguntaram, e ela quer continuar vivendo. Há uma diferença entre matar alguém que prefere continuar vivo e matar alguém que não consentiu ser morto, mas que, se perguntado, teria dado o seu consentimento.

Matar alguém que não consentiu ser morto só pode ser apropriadamente visto como eutanásia quando o motivo da morte é o desejo de impedir um sofrimento intolerável da pessoa morta. Os casos autênticos de eutanásia involuntária são os menos comuns, todavia.

Essas definições abrem espaço para um terceiro tipo de eutanásia. Se um ser humano não é capaz de compreender a escolha entre a vida e a morte, a eutanásia não seria nem voluntária nem involuntária, mas não-voluntária. Dentre os incapazes de dar o seu consentimento estariam incluídos os bebês que sofrem de doenças incuráveis ou com graves deficiências e as pessoas que, por motivo de acidente, doença ou velhice, já perderam para sempre a capacidade de compreender o problema em questão, sem que tenham previamente solicitado ou recusado a eutanásia nessas circunstâncias.

Superficialmente, o direito de morrer se basearia no princípio de autonomia, onde toda pessoa tem o direito de tomar decisões acerca da própria vida. A revista “Ciência & Vida – Filosofia”, nº 38, cuja capa estampa “Eutanásia” como manchete, cita que “para Nietzsche, não é desmedido dizer que a vida, ela mesma, que, vencida, se reduz à sobrevivência, quando não suporta a doença nem tolera a dor”. A mesma revista ainda cita que, “no Brasil, a eutanásia é considerada uma forma de homicídio. A lei não faz qualquer referência a ela, mas a prática é julgada de acordo com o artigo 121 do Código Penal, que pune crimes de homicídio com penas de 6 a 20 anos de reclusão. Há projetos tramitando no Congresso para mudar tal situação. Um deles faz parte da própria reforma do Código Penal. Parte do anteprojeto que está sendo elaborado para dar lugar à legislação penal atual prevê a alteração de dispositivos do Código Penal, legislando sobre a eutanásia em dois itens do artigo 121. No parágrafo 3º, buscando reduzir a pena de reclusão, caso o autor do crime tenha agido por compaixão e a pedido da vítima. No 4º, tentando descriminalizar o ato de deixar de manter a vida de alguém por meios artificiais, caso a morte tenha sido atestada como iminente e inevitável, desde que solicitado pelo paciente ou parentes próximos”.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Karl Marx e o século XXI




É imperativo que percebamos Marx como homem do seu tempo, o que significa enxergá-lo antenado às urgências de sua época. A história não engessa jamais, e a filosofia precisa caminhar em igual sintonia para que possamos extrair o máximo de suas experiências sem deixarmos de lado as peculiaridades de nosso tempo.

Marx, visto como um teórico do capitalismo, é talvez a figura mais importante na história recente da Filosofia Política, engendrando-se pela Economia e Sociologia. Seus estudos influenciaram diretamente a nossa história como Filosofia pragmática, voltada para os resultados de suas especulações, além de meramente devanear sobre a realidade das coisas. Marx apontava a necessidade de transformarmos a história, muito além de descobrir e decifrar os mistérios das questões fundamentais da vida. Talvez, em nossa história recente, nenhum outro homem tenha tanto influenciado nossa geopolítica de forma tão intensa quanto o nosso pensador, e o estudo das teorias que influenciaram fortemente nossa história se torna mais que uma opção – torna-se necessário para entender o mundo no qual vivemos hoje.

Apesar de que todos são frutos de seu próprio tempo e para ele estão voltadas suas atenções, o pensamento marxiano é dotado de uma mobilidade para além de seu tempo, o que torna a sua obra completamente viva mesmo depois da derrocada do muro de Berlim. O capitalismo continua com força suficiente para nos valermos das proposições de Marx e, ainda que modificado e enfraquecido, continua alvo de nossa crítica, pois uma vez desenvolvido o marxismo, tanto ele quanto seu objeto de estudo – o capitalismo – tornaram-se interdependentes.

O capitalismo mudou dos tempos de Marx para cá. Ganhou aspectos socialistas de alguma forma, como os movimentos sindicais, e noutros casos tomou certas conquistas como suas – como a democracia e a idéia moderna de liberdade; não filosoficamente, de difícil interpretação e impossível definição, mas liberdade no sentido mais lacônico – aquela “liberdade” que joga imediatamente uma idéia na mente, mas que ninguém define com clareza se perguntado. Elementos do que se compreende hoje por democracia, erroneamente atribuídos ao liberalismo, quando na verdade foram pegas “emprestadas” do socialismo, que teve na emancipação do homem as suas prerrogativas básicas, tal emancipação vista como um dos estágios finais de seu desenvolvimento.

É fundamental separarmos o marxismo do “comunismo” que foi aplicado na União Soviética, por mais estapafúrdio ou estranho que isso possa parecer. Isso por que os soviéticos se apoderaram de elementos marxistas para o desenvolvimento de seu Estado, todavia, apoderaram-se da alcunha de “socialistas” e/ou “marxistas” de maneira indevida, já que o stalinismo, por exemplo, se aproxima mais da tirania do que do marxismo. O que aconteceu na União Soviética é vista pelos estudiosos de Marx como algo que não deva ser levado em consideração sob o aspecto científico, enquanto experiência marxista – o que supõe obviamente que o marxismo ainda é uma experiência a ser contemplada pela primeira vez.

Vista sob a ótica filosófica heraclitiana da mobilidade, ficamos numa enrascada tremenda: ao mesmo tempo em que precisamos adequar o marxismo às novas realidades, precisamos não fugir de preceitos básicos para que continue sendo “marxismo”, ou melhor, “comunismo”, e não outra coisa qualquer que se apodere de suas máximas e de suas alcunhas por mera vantagem propagandística, e talvez seja difícil tentar adequar o marxismo à atualidade sem fugir do que o caracteriza sem parecer contraditório.

Marx vê a Revolução Socialista como algo do qual o capitalismo não poderá escapar por conta de sua própria natureza de exploração: surgirá o momento em que a Revolução tornar-se-á algo inevitável. É como se o pai da Revolução fosse o próprio capitalismo, e não devemos – nem podemos – tirar o seu “mérito”. Os meios de produção capitalistas, com o tempo, tendem a tornar-se frágeis e, nos nossos dias, podemos perceber que muito do que Marx profetizava se concretizou de alguma forma, o que explicita que Marx era mais que um mero “fututologista”, mas um estudioso das engrenagens de seu tempo e que teve a capacidade de olhar para além dele a partir do próprio, com todas as limitações inerentes à condição humana e às condições de seu tempo.

A revolução, para Marx, tornar-se-á inevitável por ser o desfecho provável do capitalismo, contudo dependerá de diversos fatores institucionais e sociais; dependerá de todo um amadurecimento do próprio capitalismo e de suas instituições, bem como a conscientização do proletariado. Nem Marx nem Engels preocuparam-se em saber detalhes de como seria essa revolução, ambos estavam mais preocupados em vivenciá-la.