segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A República, Livro I

Hoje começamos nossa jornada à República de Platão. O autor fala por meio do personagem Sócrates, do qual foi discípulo e herdou o método dialético de expressão filosófica. Os números entre parênteses corresponderão sempre à página da citação da edição do livro da Editora Nova Cultural publicada no ano 2000, da Coleção "Os Pensadores".

Formato: diálogo.

Personagens principais: Sócrates, Glauco (filho de Aríston), Polemarco (filho de Céfalo), Céfalo, Trasímaco de Caledônia.

Personagens scundários (e/ou apenas citados): Adimanto (irmão de Glauco), Nicerato (filho de Nícias), Lísias (irmão de Polemarco), Eutidemo (irmão de Polemarco), Carmantides de Penéia, Clitofonte (filho de Aristônimo), o “servo” de Polemarco.

Tema: A natureza da Justiça

A narrativa se passa predominantemente em primeira pessoa do singular, alternando algumas vezes para a primeira pessoa do plural, quando refere-se a Sócrates e Glauco.

Numa inicialmente calorosa conversa sobre o que venha a ser “justiça”, Sócrates, Céfalo (e posteriormente seu filho, Polemarco) divagam através da tradicional maiêutica socrática.

Dentre idas e vindas, sempre se tentando chegar a uma conclusão satisfatória, Sócrates questiona Polemarco sobre a fatual função/utilidade do “ser justo”, donde pressupunha-se que justiça seria a prática do bem em relação aos amigos e/ou honestos e que igualmente justo seria prejudicar os inimigos e/ou desonestos. Estas variáveis, entre outras menos importantes estão presentes na primeira metade do diálogo.

Contudo, Trasímaco intervém furiosamente, alegando, por exemplo, que Sócrates não deve fazer tantas perguntas, mas sim satisfazê-los com respostas. Procede que Sócrates amiúde utiliza-se de sua habitual ironia; demonstra-se desejoso de conhecer a verdade e solicita de Trasímaco uma resposta para aquelas questões pertinentes.

Ao Trasímaco afirmar que o justo é o levar vantagem sobre os hierarquicamente mais fracos – fala-se em governos e leis – Sócrates questiona as intenções dos governantes, que podem fazer leis boas ou más, pois são passíveis de se enganarem; e Trasímaco forçosamente há de concordar.

No desenrolar do diálogo, Sócrates faz Trasímaco chegar à seguinte conclusão: “também justo é fazer o que é desvantajoso para os governantes e para os mais fortes, quando os governantes, inadvertidamente, dão ordens que lhes são prejudiciais, porquanto tu afirmas ser justo que os governados façam o que ordenam os governantes (...), não decorre necessariamente que é justo fazer o contrário daquilo que dizes? Com efeito, ordena-se ao mais fraco que faça o que é prejudicial ao mais forte”. (21-22)

Trasímaco, laconicamente considerou ser justo o que é vantajoso para o mais forte. Todavia, com o desenrolar do raciocínio, Sócrates fê-lo concordar que toda arte e ciência não existe para si mesma, e sim para o sujeito da qual ela exerce sua função. Desse contexto à analogia do Estado, foi breve.

O sofisma de Trasímaco, porém, o mantém firme em sua posição de que o injusto, com seus devidos privilégios, é mais feliz e pleno em relação ao justo, e passa a recusar-se a contra-argumentar após proferir longo discurso parodiando a linguagem sofista.

Na aparente ausência de sentido no discurso de Trasímaco, Sócrates insiste em afirmar que os governantes governam para os governados, e não para eles próprios. Sócrates menciona três formas de salário aos que concordam em governar: dinheiro, honra ou castigo, “se por ventura se recusarem” (30). Refere-se a ele como o salário dos melhores, denominando tais governantes de virtuosos quando se resignam a fazê-lo; ao passo que considera o amor à honra e ao dinheiro como algo vergonhoso. Homens de bem, segundo ele, não devem governar nem por honra nem por dinheiro. Portanto, sem ambição e lucro, é necessário que haja “obrigação e castigo” para governar.

Tomar o poder de livre vontade, sem que a necessidade a isso obrigue, pode ser considerado vergonha, “e o maior castigo consiste em ser governado por alguém ainda pior do que nós, quando não queremos ser nós a governar”. (30)

Após alguns rodeios através dos sofismas de Trasímaco, Sócrates, através de sua brilhante interrogativa, dilacera as contradições de seu oponente, uma a uma. Relutantemente, Trasímaco admite a possibilidade de que o justo assemelha-se ao homem sábio e bom, e o injusto ao homem mau e ignorante; associando-se a justiça à virtude e a injustiça ao vício.

Por fim, o filósofo atribui à alma uma função que só ela pode desempenhar – analisando se a vida do justo seria melhor que a do injusto – como vigiar, comandar, deliberar; Seriam funções peculiares à alma, sendo a vida uma função desta. Decorrente disto, conclui que a justiça é uma virtude e a injustiça, um vício da alma e, por conseguinte, o homem justo seria mais feliz do que o homem injusto.


quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Especial - A República, de Platão


Caros leitores, a partir da próxima segunda-feira, postarei uma vez por semana um comentário sobre um livro de Platão na ordem dos que constam n'A República. Para cada livro da República, citarei o tema central e procurarei fazer um resumo do que se trata no diálogo, a fim de tornar mais prático e acessível para os não-acadêmicos de Filosofia. Óbvio que, dentre os textos constarão minhas visões a respeito do que foi tratado num diálogo ou no livro e a conseqüente análise dos mesmos. Farei o possível para que esta minha contribuição seja de boa qualidade, porém ciente de que poderão haver interpretações distintas da minha a respeito de determinados assuntos.
Toda segunda-feira será postado um livro da República, na seguinte ordem:
a) 06 de setembro de 2010 - Livro I
b) 13 de setembro de 2010 - Livro II
c) 20 de setembro de 2010 - Livro III
d) 27 de setembro de 2010 - Livro IV
e) 04 de outubro de 2010 - Livro V
f) 11 de outubro de 2010 - Livro VI
g) 18 de outubro de 2010 - Livro VII
h) 25 de outubro de 2010 - Livro VIII
i) 1º de novembro de 2010 - Livro IX
j) 8 de novembro de 2010 - Livro X

Espero que eu possa contribuir para que tenham uma prazerosa leitura.
Abraços!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Papagaios Amestrados

A pedra se bate com os ratos na carcerária
Que escancaram uma podridão multicintilante
Transborda de lucidez na luz que lhe é precária
Uma porta de entrada para o busto do amante

Vos diz em silêncio em póstuma mortalha:
- A pedra me é encanto numa lasca ambulante!
Nisso, faz gemer os incautos, incultos canalhas
Que deixam de sê-lo num primeiro instante

Por puro egoísmo, do egoísmo burro que calha
A pensar que a vantagem do alheio é alheia a si
E desponta a margem no rebanho da migalha

Papagaios amestrados ignorando a falha
Dum bem maior que perpassa sua psi
Inocentes ou putrefatos, eis a massa petralha.

Recife, 25 de agosto de 2010

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Charlatães do amor


A revista VejaSP da semana dos namorados, em reportagem de capa de Giovana Romani e João Batista Jr., presta um bom serviço ao expor os clichês usados por astrólogos, tarólogos, pais de santo e todo tipo de videntes para faturar pesado com as agruras amorosas de pessoas desesperadas por qualquer ajuda.

E como podem faturar, porque cobram: além das consultas, sete dos dez videntes cobraram valores de R$500 a R$3.000 para trabalhos extras, sem os quais diziam que os clientes sofreriam terrivelmente. “Nos próximos dias, um acidente de carro deixará a pessoa amada em coma”, vaticinou dona Catarina. “Você vai atropelar duas menininhas, e isso pode acabar com a sua vida”, ainda previu. Tragédias que poderiam ser evitadas em 24 horas com um trabalho de R$588.

Além dos relatos impressionantes de exploração de credulidade, a matéria ainda conta com os alertas de psicólogos, incluindo os dez mandamentos da adivinhação indicados por Jayme Roitman e Marcia Cobêro:



OS DEZ MANDAMENTOS DA ADIVINHAÇÃO

1. Faça sempre um raio X da vítima. Aparência, roupas e até o carro em que chegou fornecem pistas sobre sua personalidade.

2. Pergunte quem é, o que faz, onde mora e a data de nascimento no início da consulta, além de procurar saber o que traz a pessoa ali.

3. Tente compreender os anseios do cliente. Isso permite, com o perdão do trocadilho, dar as cartas no jogo e conduzir a conversa. Se desconfia que o marido tem uma amante, por exemplo, confirme.

4. Emita apenas afirmações genéricas. Toda família tem alguém doente, uma ovelha negra, alguém endividado ou desempregado. Um novo amor, obviamente, sempre pode aparecer.

5. Deixe que as perguntas pareçam afirmações.

6. Aproveite dicas oferecidas nas respostas anteriores para formular novas previsões.

7. Preveja fatos que possibilitem diversas interpretações.

8. Transforme erros em acertos. Se ao perguntar se alguém próximo morreu recentemente a resposta for negativa, emende: “Então vai morrer em breve”.

9. Estabeleça prazos.

10. Aposte na casualidade. Acidentes, separações e mortes ocorrem a toda hora.


A excelente matéria (salvo pelo erro de português - "charlatões") está disponível na íntegra: http://vejasp.abril.com.br/revista/edicao-2168/dia-dos-namorados-simpatia-charlatoes

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Evento - Recital na UFPE

Imagem: Trovadores do Séc. XIII


Está marcado para o dia 06/05 o Recital Filosófico, no Diretório Acadêmico de Filosofia, localizado no 3º andar do CFCH.

Todos estão convidados, tragam seus poemas e/ou poemas alheios e, por ventura, seus vinhos e vamos brindar à arte e "celebrar a vida"!

Informações: saulomoreira@hotmail.com

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Caso Maristela Just

Essa postagem não se trata de filosofia muito menos poesia. É apenas uma colaboração a respeito de um apelo de uma amiga minha, que tem sede por justiça e me encaminhou o seguinte via e-mail:

Nos próximos dias 13 e 14 de maio, haverá o julgamento do assassinato da estudante universitária Maristela Just pelo seu ex-marido, o comerciante José Ramos Lopes Neto, ocorrido em abril de 1989.

A família, que já luta há 21 anos para que o processo seja devidamente julgado, está mobilizando toda a sociedade a voltar sua atenção ao caso, que prescreveria no próximo mês de julho. O processo será julgado na 1a. vara do Fórum de Jaboatão dos Guararapes - PERNAMBUCO, onde será submetido a júri popular.

O acusado, filho do renomado advogado criminalista pernambucano Gil Teobaldo, disparou na noite de 4 de abril de 1989 três tiros fatais contra a ex-mulher de 25 anos, um tiro na cabeça do filho de 2 anos e um outro no ombro da filha, então com 4 anos, além de ter deixado baleado o cunhado Ulisses Ferreira Just, quando o mesmo tentava socorrer a irmã e os sobrinhos. Os três feridos permanecem até hoje com sequelas graves, tendo o caçula o lado esquerdo do corpo paralisado e o cunhado, que tinha 27 anos à época, um projétil alojado na coluna de forma irreversível.

O crime aconteceu na casa dos pais da vítima, no bairro de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, e o acusado, mesmo após ter sido preso em flagrante e confessado a autoria dos crimes, permanece em liberdade desde 1990, aguardando o julgamento do processo.

Desde que foi informada a respeito da data oficial do julgamento, a família Just disponibilizou diversas informações e documentos sobre o caso, que hoje circulam na Internet através de e-mails, blogs e redes sociais. Foram criados ainda um blog oficial sobre o caso e um canal no Twitter, a fim de esclarecer melhor os fatos à sociedade. A campanha vem apresentando resultados significativos, com a manifestação de apoio de diversas autoridades e entidades pernambucanas, que, junto aos amigos da família, demonstram sua solidariedade e empenho em levar o caso ao conhecimento de um número cada vez maior de pessoas.

Sendo assim, pedimos que, se possível, ajude-nos a divulgar a situação e apoiar a família em sua luta por justiça.

Rossana Just

ACESSE: www.casomaristelajust.blogspot.com
Twitter:
@casomaristelaju