sábado, 21 de julho de 2012

Das tradições

Freqüentemente observamos alguém defendendo algum ritual, evento ou costume baseando-se no argumento dogmático da "tradição". Como se apenas o fato de ser antigo e costumaz, pudesse ser referendado e legitimado como algo justo e/ou ético. Mas, como tudo que seja dogmático, essa alegação não se sustenta por muito tempo quando questionada. 
Na tradição da tourada, o boi é torturado, ferido e sucumbe por muito tempo até a exaustão, quando acontece o golpe final.
Algo que é mau jamais vai tornar-se bom somente através da repetição e do tempo. Precisamos cultivar boas tradições para evitarmos causar ainda mais dor e sofrimento no mundo. As tradições não possuem um valor intrínseco e não tornam-se éticas tão-somente por serem antigas. Temos a capacidade de escolher e moldar sob quais tradições penderá a cultura dos nossos descendentes no futuro.
A circuncisão das crianças judias e algumas muçulmanas; as touradas, rodeios e outros tipos de pseudo-esportes baseados na tortura e no sadismo; a mutilação dos órgãos genitais das mulheres muçulmanas (e, na África, também de algumas cristãs); entre outras "tradições" jamais tornar-se-ão morais apenas por serem rituais antigos. Ao contrário, alguns costumes primitivos que venceram o tempo precisam ser revistos sob a luz da razão e evoluir com ela; o que significa a extinção de comportamentos bárbaros. Assim como foram vencidas as "tradições" da escravidão, mesmo com o forte apelo da Igreja Católica contra a abolição e dos torneios da morte no antigo coliseu de Roma, que era reverenciado pelo próprio Estado. Passada a fase, ninguém em sã consciência desejaria a volta desses costumes.
Não há um valor moral em si que seja conseqüência da repetição de um ato bárbaro, não é razoável conceber que apenas o tempo seja capaz de legitimar algo primitivo e repugnante como aceitável e ético. Os valores precisam estar permanentemente sob o crivo do princípio da razão e à luz da ciência para que possamos reunir condições de aumentar as possibilidades de felicidade e diminuir a dor das criaturas do mundo, já que a existência é inevitável a partir do momento em que a mesma é factual. Então, façamos valer a pena.
 

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Separando o joio do trigo: dogma e razão

Já ouviram falar de algum crente que seja "cabeça aberta", "diferente", ou simplesmente que não é "fanático"? Ora, e o que seria o fanático senão o religioso que simplesmente aceita aquilo que está escrito em seu manual da vida, seja ele qual for? O dito "fanático" nada mais é do que o religioso que coloca em prática - e na mente - os supostos ensinamentos de seu deus. Alguém duvida que aqueles islâmicos assassinos do World Trade Center sejam homens de muita fé? A alcunha de "loucos" só serve pra disfarçar o óbvio. De loucos, não tinham nada. Eram devotos. Mas compraram a fé e pagaram o preço.

É claro que, especialmente no Ocidente, se alguém colocar em prática os "ensinamentos" bíblicos de sacrifício, escravidão e opressão à mulher, por exemplo, vai preso no mesmo dia. E aí, criaram a Teologia, uma pseudo-ciência que contorce a Bíblia no sentido de torná-la mais digerível, colocando interpretações mil e tentando mascarar o que está lá, muito cru. A Teologia é a própria manipulação da palavra na tentativa de manter o divino sem ter que aceitar que tudo aquilo só não parece ainda mais intragável, primitivo e absurdo por nos acostumarmos aos seus mitos desde a nossa mais tenra infância. É inconcebível que algum ramo que pretenda-se ciência possa partir de pressupostos. E me refiro a algo básico mesmo, conceitual.

Quando ouvimos alguém mencionar que há "crentes de cabeça aberta" ou até mesmo "não-praticantes", o que na verdade me vem à mente é só um rótulo onde se lê "evangélico", de conteúdo vazio. Os evangélicos de fato, propagam a desigualdade que está presente em seu manualzinho da vida, vulgo bíblia - e se apoiam nessas mitologias primitivas pra propagar esse tipo de insanidade, já que só mesmo através da fé e da ordem divina é possível defender esses tipos de atrocidade. O que aconteceria ao homem que pretendesse ter o outro como propriedade de si, se não fosse por ordem de um deus? E isto vale tanto para a escravidão como a dominação de gênero.

Com tantas atrocidades em seus manuais, quem são mesmo os radicais: os crentes ou os seculares? No fundo, qualquer minoria é comumente taxada de "radical". Esta palavra hoje é, de fato, quase um sinônimo de "integrante de uma minoria". Estado laico significa, literalmente, sem religião. Confundir essa premissa com ateísmo, como querem os que são contra a causa dos ateus que lutam por seus direitos de liberdade, respeito e dignidade (já ouviu o clichê "estado laico não é estado ateu"? Pois é) só causa confusão e afasta da realidade. Qualquer apologia de qualquer tipo de dogma deveria ser proibida pelo próprio estado. Eu sou ateu, mas acho que um "Estado Ateu" seria tão absurdo quanto um estado teocrático qualquer, já que esse tipo de postura a respeito do sobrenatural deve ser ignorado pelo estado, ao invés de ser oficializado de alguma forma. No fim das contas, o ateu simplesmente ignora a religião, no limite de que a religião não se contraponha a direitos básicos fundamentais - e aí é que o problema começa, já que todas as religiões querem impor verdades em detrimento do conhecimento racional. 

Não há Ética em manuais prontos e acabados. Temos, no máximo, um código moral e que, por ser imóvel, não pode ser considerado Ética, esta que é uma área abordada pelo conhecimento racional da Filosofia, que, ao contrário, é fluida. O máximo que pode-se alcançar no dogma é algo rígido e imune à crítica e à evolução de seus preceitos. É impossível conciliar dogma e princípio da razão por questões básicas conceituais. É o mesmo grande problema da Filosofia Medieval, que parte de pressupostos e aniquila a crítica desde sua origem.

É perigoso cairmos na relativização de tudo, e é também amiúde a saída dos crentes e inimigos da razão em geral: nivelar todo tipo de conhecimento e argumentação de uma só maneira, em nome de uma falsa tolerância. Mas não é possível, devido a simples contradições, como um composto bifásico. O preto nunca será branco e o óleo não se mistura n'água. O que legitima o princípio da razão é a origem de tal conhecimento (que se OPÕE justamente ao dogma), e pelo fato do conhecimento racional e/ou científico ser, necessariamente, REVISIONISTA, ele jamais pode ser considerado dogmático salvo caso de muita ingenuidade. Algo que não parte de pressupostos e que busca legitimar-se através de evidências jamais poderá estar lado a lado com quaisquer tipos de dogmas, que devem ser, efetiva e justificadamente, combatidos. A tolerância precisa ser praticada, com amor e respeito, sempre. Mas quando estamos falando de idéias, precisamos nos manter ao lado da imparcialidade e do "amor à sabedoria". E, quando há respeito mútuo, a verdade tende a sobressair-se com o tempo.

Três pontos devem ser reforçados em relação às colocações acima, devido ao repeteco dos que se opõem ao conhecimento racional, utilizando-se da insistência em pontos já superados de suas falácias, como se já não tivessem sido eficientemente combatidas:
1. Não é verdade que a o princípio da razão parta de pressupostos e seja revisionista ao mesmo tempo, é uma contradição óbvia. 2. É comum hoje em dia, em nome de uma falsa tolerância, admitir-se que todos os pontos de vista têm igual valia, mas isto simplesmente não faz o menor sentido quando minimamente questionado. 3. Nem a razão e muito menos o conhecimento científico são infalíveis - e nem pretendem ser - mas a origem de seus resultados os legitimam como conhecimentos mais confiáveis que qualquer tipo de dogma, fazendo que os dois primeiros sejam completamente opostos ao último. 

Um dos maiores desafios da Filosofia do nosso tempo é continuar pensando a Ética de maneira isenta, sem a interferência de sistemas fechados, prontos e acabados - como querem os dogmáticos.  Algo "elaborado" jamais poderá equiparar-se a algo desenvolvido na base da criatividade, metafísicas hipotéticas que só se sutentam em fantasias e imaginação. É justo que elas tenham sido criadas num mundo em que a humanidade não tinha condição de entender e explicar o mundo. Uma vez desenvolvida a Filosofia e, posteriormente, a metodologia científica, não há sentido e necessidade em insistirmos em não compreender a existência das coisas através de evidências. Não precisamos mais dos conhecimentos mitológicos, eles já cumpriram o seu papel. A credibidade dos conhecimentos filosófico e científico se dão justamente por não dependerem dos dogmas em geral.

O que diferencia a credibilidade dos conhecimentos 'verdadeiros' da força absolutista dos dogmas é justamente a origem dos mesmos. A condição a que se chega nos resultados faz toda a diferença. Isso é algo factual, e reconhecer essa obviedade é importante para não cairmos na areia movediça da relativização de absolutamente tudo, tornando qualquer absurdo acrítico - como violência física contra as minorias, por exemplo - defensável.

Aceitar a morte, ao invés de temê-la, é amadurecer. Discordo, como querem alguns, que a escolha seja entre uma mentira confortante e uma verdade que incomoda. Penso que a consciência da finitude pode trazer mais qualidade de vida.

 


Pessoa de bem?

Infelizmente, a religião e seus rituais são utilizados, em geral, só para o alívio da consciência de quem crê. O ego dos crentes fala mais alto do que o mundo que agoniza ao seu redor. E, no fim das contas, tudo se justifica pela fé, ainda que para olhos neutros pareça absurdo.
 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Chama de Vela

Ah, Senhor! Se tu existisses
Dar-me-ia Teu sonoro acorde
Em que plantas, que me vistes
Numa pureza sem que desconforte

A viagem branda que existe
Em mim, nesta hora que m'entorte
Me banha de fome quando feriste
Este amor que é pura sorte

Proclamo o dedo em riste
A chuva que lava os comportes
Para bruma alinhada que abriste
Não me basta ao regar este corte

A chama doce da raiz, conquiste
De maneira que a chuva tudo prove
Quando a chama quente e triste
Separe a dor ferrenha desta morte.

25/02/2012

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Da igualdade de oportunidades à igualdade de consideração



 Desde o pós-feudalismo, do mercantilismo e do desenvolvimento do capitalismo, em nossa cultura a má distribuição das riquezas, desde que haja a igualdade de oportunidades é vista de forma natural, assim como nos acostumamos a ver pessoas com diferentes status sociais sem nenhum espanto.
A idéia é de que não há nada de errado em Macedo ganhar vinte e cinco mil reais enquanto Pereira ganha mil e duzentos reais, desde que Pereira tenha tido a mesma oportunidade de estar onde Macedo está hoje. Suponhamos que a diferença de renda se deva ao fato de que Macedo é juiz e Pereira um trabalhador rural. Isso seria aceitável se Pereira tivesse tido a mesma oportunidade em formar-se em Direito e depois estudar para concursos, com o que se pretende obviamente dizer que ele não fora excluído do curso de Direito por alguma atitude discriminatória ou alguma inaptidão relevante para tal. Vista deste modo, segundo Singer¹, a vida seria “uma espécie de corrida na qual é justo que os vencedores levem os prêmios, desde que todos tenham o mesmo ponto de partida. O ponto de partida igual representa igualdade de oportunidades, e isto, dizem alguns, é o máximo a que pode chegar a igualdade.”
Contudo, essa visão é por demais superficial e não resiste a um exame mais aprofundado. Várias questões podem ser levantadas, como o motivo pelo qual os resultados obtidos por Pereira não foram tão bons quanto os de Macedo; talvez a educação de Pereira até aquele momento tivesse sido inferior e, convenhamos, equiparar os níveis das escolas é um objetivo tão distante no caso do Brasil que soa quase que como uma utopia, mas ainda assim é o alicerce básico a ser defendido a todo aquele consciencioso que tiver pretensão de atingir algum nível de igualdade de oportunidades. Admitindo-se que Pereira de fato estudou numa escola em condições inferiores, podemos afirmar que fica bem claro que ambos não estavam competindo em igualdade de condições e, ainda que admitíssemos que a escola tenha sido a mesma, algumas crianças são favorecidas pelo tipo de lar de qual provêm: livros disponíveis, quarto silencioso que torne possível uma boa concentração, harmonia no lar, etc. são fatores relevantes que podem explicar, por exemplo, do porquê de Macedo ter estudado na mesma escola e ter tido resultados superiores em relação a Pereira, que precisa dividir o quarto com mais dois irmãos e agüentar reclamações do pai, para quem ele está perdendo tempo com livros ao invés de o estar ajudando na lavoura.
Contudo, não é possível igualizar os pais ou os lares – a menos que propuséssemos o abandono do contexto familiar tradicional e criar os nossos filhos em creches comunitárias – como no sistema d'A República, de Platão, onde as crianças sequer sabiam quem eram seus pais – isso se torna impossível. Mesmo que atribuíssemos, fantasiosamente, que todas as crianças têm as mesmas condições de acesso e qualidade de ensino e seus lares proporcionem conforto e harmonia, ainda há outras objeções, como por exemplo a capacidade cognitiva e herança genética de cada criança. Vista dessa forma, mesmo a igualdade de oportunidades não parece atraente, haja vista que a criança dependerá meramente do fator ‘sorte’, que os recompensará com melhores resultados, enquanto aqueles com maiores dificuldades de concentração e armazenamento de informações, por herança genética, por exemplo, não teriam a mesma chance.
Singer¹, questiona se “será realista almejar uma sociedade que recompensa as pessoas segundo as suas necessidades, e não (...) [a sua capacidade cognitiva], a sua agressividade ou outras aptidões herdadas? Não teremos de pagar mais às pessoas por serem médicos ou advogados, ou professores universitários, por realizarem o trabalho intelectual exigente que é essencial para o nosso bem-estar?” Não há dúvidas de que se algum país quisesse igualar os salários de todos os cidadãos, aqueles que ganhavam mais iriam promover uma emigração em massa. Se algum país adotasse um sistema desses, e os outros países não o fizessem, teríamos algo como uma “fuga de cérebros”. No comunismo, é o problema que acontece quando ele não se dá em todo o mundo. Na experiência soviética e nos países que, de alguma forma, se espelham no socialismo, como Cuba, isso é um fenômeno notável. Marx esperava que o comunismo se alastrasse por todo o mundo, e essa era a maior preocupação de Lênin. Quando os socialistas perceberam que sua revolução não se alastrara o suficiente, restringiram violentamente as liberdades individuais, inclusive a de emigrar. Fizeram vigílias armadas nas fronteiras para evitar a fuga de seus cidadãos para países que recompensavam melhor o trabalhador qualificado, bem como para evitar o contato com os ‘inimigos’ externos².      
O “socialismo em um só país” exige que a nação viva sob constante vigília, transformando-a num campo armado, com inúmeros guardas de fronteiras, vigiando tanto os próprios cidadãos quanto os inimigos externos. Essas conseqüências sugerem que o socialismo não valha a pena o preço a ser pago por ele.

¹ SINGER, Peter. Ética Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
² SINGER, Peter. One World: The Ethics of Globalization. New Haven: Yale University Press, 2004.
 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Ética e Eutanásia


Há uma harmonia nas concepções de Peter Singer a partir da universalizabilidade e da consideração de interesses, onde tudo se encaixa quando aceitamos as máximas que fundamentam os seus preceitos. Tal como o estreitismo entre a questão do aborto, no autor, como a questão da eutanásia.
A eutanásia tem sido freqüentemente debatida hoje por conta, em grande parte, das novas tecnologias e que, através de seus aparatos, conseguem estender a vida em estado miserável e/ou vegetativo até as últimas conseqüências, e o objetivo disso torna-se questionável nos casos em que manter uma vida em estado miserável só virá a trazer sofrimento ao doente e à família, e no estado vegetativo, será somente a família o alvo do padecimento, já que o próprio paciente já não tem qualquer capacidade de entender o que se passa, de sentir, capacidade de discernimento, enfim, o paciente encontra-se numa debilidade tão grande que nem mesmo mais sofre ou tem quaisquer tipos de prazeres.
A “eutanásia”, nos dicionários, é descrita como uma morte serena, sem sofrimentos. Há uma ligação íntima da eutanásia, neste sentido, e o suicídio desde os tempos primórdios da História da Filosofia. Ambos os casos estão relacionados com a autonomia daquele agente que sofre: só ele será capaz de decidir para si entre a vida e a morte – e nesse caso encaixar-se-ia com o conceito de “eutanásia voluntária” em Singer.
Na História da Filosofia, nossa concepção atual sobre “eutanásia” confunde-se com o ato do suicídio, que é um tema que é tabu em todas as sociedades. Ainda que em casos específicos, como o dos estóicos, ou no caso do suicídio pela honra da família, como acontece desde os tempos primórdios da cultura japonesa, é um tema que causa espanto e controvérsias.
Os estóicos respeitavam o ato do suicídio. Era até recomendado para quando se pudesse decidir que a vida não tinha mais o porquê de ser vivida. Os estóicos suportavam as adversidades com calma e dignidade, mas também acreditavam que as circunstâncias da vida de um homem podia se degradar a tal ponto (seja devido a uma tragédia pessoal, à ruína e a subseqüente miséria, seja devido a uma doença dolorosa e terminal), que um suicídio indolor se tornava a coisa mais racional a fazer. Há nesse tipo de argumentação um paralelo óbvio com a questão da eutanásia, que ganhou novos aspectos etimológicos à medida que a tecnologia foi avançando.
A concepção de eutanásia, que geralmente era tolerada ou incentivada pelos antigos, por diversos motivos como alívio da dor e até mesmo em nome da honra, vai mudando com o tempo e coincide com o avanço do cristianismo no Ocidente e a questão da sacralização da vida volta a ganhar destaque nesse contexto. Em geral, não há sentido simplesmente em manter uma pessoa cuja morte é certa e a dor agonizante, viva. O paradigma que estamos vivendo em relação ao direito à vida remonta a questão cristã do caráter sagrado da vida humana, donde uma vida que, segundo essa doutrina, é dada por Deus, deverá ser mantida custe o que custar, ou seja, até suas últimas conseqüências. Acontece que os novos métodos de preservação da vida em determinados casos terminais faz necessário o questionamento destes dogmas religiosos, em prol do alívio do sofrimento daqueles que, amiúde, nem sequer têm o direito de escolher entre a dor e a morte. As novas tecnologias nos apresentam novos questionamentos a respeito de ética e moralidade – e é aí que se encaixa a Ética Prática com todo o seu arsenal filosófico que privilegia o pragmatismo da aplicabilidade do pensar filosófico e do pensamento lógico em prol da vida, contudo não de forma cega e a todo custo, mas “vida” até o momento em que haja sentido para que se denomine enquanto tal.
No Brasil, a lei sobre esta questão se manifesta e encara como homicídio a eutanásia, o ato deliberado de apressar o fim de quem está morrendo. Nesse jogo entre o alívio da dor e a “tortura”, a ortotanásia, “a morte no momento certo”, é considerada omissão de socorro e tem pena de um a seis meses de prisão. Apesar disso, a ortotanásia é freqüentemente praticada. O médico retira os aparelhos e deixa o doente seguir o seu curso de morte. Trata-se do modo mais comum de morrer nas UTI’s pediátricas do Brasil, como verificado em dois estudos publicados em março de 2005 pela Revista Brasileira de Pediatria, sobre 167 casos ocorridos em 2002 nas principais UTI’s pediátricas do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais. Estes estudos mostram que pelo menos 36% das crianças morreram após a “limitação do suporte de vida”, expressão que reúne decisões como não entubar, não reanimar e até tirar o suporte vital.
O estudo observou que pelo menos 30% desses casos são omitidos ou reportados contraditoriamente nos hospitais. Mas há quem veja na própria legislação fundamentos para apressar a morte quando o tratamento só prolonga o sofrimento. O 1º artigo da Constituição assegura a dignidade da pessoa humana, e esse direito deveria ser estendido até os últimos momentos – é o que alega, por exemplo, Lívia Pithan, professora de Direito da USP.
Hoje em dia é que o termo “eutanásia” é utilizado para referir-se à morte daqueles que estão com doenças incuráveis e sofrem de angústia e dores insuportáveis. É uma ação praticada em benefício dos doentes e tem por finalidade poupar-lhes a continuidade da dor e do sofrimento. Singer inclui, porém, pessoas sem capacidade de decisão, onde a medicina aponta para uma vida de dor e privações caso estendida. Há três tipos de eutanásia. Ei-los:
- Eutanásia voluntária;
- Eutanásia involuntária;
- Eutanásia não-voluntária.
A eutanásia voluntária é quando o próprio paciente em questão tem ainda condições de pedir pela própria morte. A maior parte dos grupos que brigam por mudanças legais em relação à eutanásia referem-se à esse método¹.
Na eutanásia involuntária, a pessoa morta tem condições de consentir com a própria morte, mas não o faz, tanto por que não lhe perguntaram se quer morrer quanto por que lhe perguntaram, e ela quer continuar vivendo. Há uma diferença entre matar alguém que prefere continuar vivo e matar alguém que não consentiu ser morto, mas que, se perguntado, teria dado o seu consentimento.¹
Matar alguém que não consentiu ser morto só pode ser apropriadamente visto como eutanásia quando o motivo da morte é o desejo de impedir um sofrimento intolerável da pessoa morta. Os casos autênticos de eutanásia involuntária são os menos comuns, todavia.
Essas definições abrem espaço para um terceiro tipo de eutanásia. Se um ser humano não é capaz de compreender a escolha entre a vida e a morte, a eutanásia não seria nem voluntária nem involuntária, mas não-voluntária. Dentre os incapazes de dar o seu consentimento estariam incluídos os bebês que sofrem de doenças incuráveis ou com graves deficiências e as pessoas que, por motivo de acidente, doença ou velhice, já perderam para sempre a capacidade de compreender o problema em questão, sem que tenham previamente solicitado ou recusado a eutanásia nessas circunstâncias.¹
Superficialmente, o direito de morrer se basearia no princípio de autonomia, onde toda pessoa tem o direito de tomar decisões acerca da própria vida. A publicação filosófica “Ciência & Vida – Filosofia”, nº 38, cuja capa estampa “Eutanásia” em destaque, cita que “para Nietzsche, não é desmedido dizer que a vida, ela mesma, que, vencida, se reduz à sobrevivência, quando não suporta a doença nem tolera a dor”. A mesma publicação ainda cita que, “no Brasil, a eutanásia é considerada uma forma de homicídio. A lei não faz qualquer referência a ela, mas a prática é julgada de acordo com o artigo 121 do Código Penal, que pune crimes de homicídio com penas de 6 a 20 anos de reclusão. Há projetos tramitando no Congresso para mudar tal situação. Um deles faz parte da própria reforma do Código Penal. Parte do anteprojeto que está sendo elaborado para dar lugar à legislação penal atual prevê a alteração de dispositivos do Código Penal, legislando sobre a eutanásia em dois itens do artigo 121. No parágrafo 3º, buscando reduzir a pena de reclusão, caso o autor do crime tenha agido por compaixão e a pedido da vítima. No 4º, tentando descriminalizar o ato de deixar de manter a vida de alguém por meios artificiais, caso a morte tenha sido atestada como iminente e inevitável, desde que solicitado pelo paciente ou parentes próximos”.

¹ SINGER, Peter. Ética Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Qual a diferença entre a vida de uma alface e a de uma vaca?


Escrevi diversos artigos que abordam essa área da Filosofia tão importante que é a Ética. Presumi, contudo, que não era necessário me aprofundar nessa questão da valoração da vida, mas devido à insistente comparação dos opositores aos movimentos em defesa dos animais entre a vida de uma alface e a vida de uma vaca, porca, cavalo, etc., senti-me obrigado, por mais massante que seja, a me voltar para esse tema. Considero cansativo por não acreditar que quem levanta uma questão dessas esteja sendo intelectualmente honesto, salvo algum caso de muita ingenuidade.

Na postagem "Dessacralizando a vida humana", defendi que não é racional o argumento religioso de que a vida do ser humano é diferente por ser sagrada. A partir disso, precisamos nos perguntar qual é o tipo de vida que deve ser levado em consideração por intermédio da compreensão dos seus interesses. Se, à primeira vista, parece lógico que uma alface tem vida e que somente por isso ela deve ser preservada e seria, do ponto de vista utilitarista, tão antiético comê-la quanto comer um boi, essa afirmação mostra-se absurda quando minimamente questionada. Os animais senscientes que evoluíram, ao longo da história desse planeta, em paralelo com a espécie humana, têm um sistema nervoso semelhante ao nosso, tendo casos, inclusive, de sistemas nervosos ainda mais desenvolvidos do que o da espécie humana. Partindo desse fato, vamos às evidências: o que faz com que seja um imperativo moral para todos os seres humanos o respeito mútuo, torna-se também "obrigatório", se formos intelecutualmente honestos e não manipuladores de argumentos, alastrá-lo para todas as espécies que possuem esses atributos. Isso foi explanado por mim em postagens anteriores, como em "Especismo", "Condições de igualdade", "A Ética Prática", "Singer e a moralidade", dentre outros, e por esse motivo esses temas específicos não serão aprofundados na presente postagem. Se temos interesses na preservação do nosso corpo, em sentir-mo-nos saciados, não sentirmos dor, etc., parece-nos evidente que esses animais que reagem a estímulos e têm consciência de si também possuam estes mesmos atributos. Quando uma galinha ouve um barulho de passos o qual ela está acostumada a ouvir antes de receber milho, evidencia-nos ter memória; quando um cão grita e foge quando leva uma pancada, evidencia-nos dor, e assim o é com membros da nossa própria espécie. Do ponto de vista racionalista, não temos condições de ter sequer noção do que uma outra pessoa é capaz de sentir, ou sequer que outra pessoa seja capaz de pensar. Descartes aprofundou essa abordagem e concluiu que a única verdade que ele considerou irrefutável era a própria existência e nada mais. E que essa existência era um ser que pensa, mas não pode ir além disso; não é capaz de entender o que se passa na alteridade. E é aí que entra a questão da experiência, ou da empiria. Da mesma maneira que só através de evidências podemos pressupor que uma outra pessoa sente dor, mesmo que seja impossível saber se a intensidade da dor que outra pessoa sente seja a mesma que nós sentimos, podemos fazê-lo com os animais observando seu comportamento. Não parece razoável que alguém realmente acredite que uma alface arrancada da terra possa sofrer tanto quanto um boi sofre numa tourada de Madrid.

Um dos grandes problemas que temos em relação à Ética é a "coisificação" de tudo que não é humano, e nisso incluem-se os animais. As razões para isso, ao longo da história são muitas, e as religiões monoteístas infelizmente ajudaram a difundir que o homem é o senhor da criação e que tudo o que está para além da espécie humana só serve para servir ao próprio homem. Esse ponto de vista tem sido trágico para o Meio Ambiente e essa conta acaba voltando para todos nós. É um engano imaginar que podemos ter vantagens num ponto de vista que faz com que a presença do homem no planeta seja como uma erva daninha para uma árvore que não consegue frutificar. Contudo, há um novo paradigma no ar: o Biocentrismo, que reflete um novo estágio na evolução humana do ponto de vista moral. A maioria das populações humanas de hoje não têm mais necessidade de causar dor e sofrimento a outras espécies para sobreviver, e a saciedade da fome de um dia não justifica o sacrifício de uma vida inteira nesse nosso contexto global atual. Ainda mais trágico se torna quando imaginamos que a morte é apenas uma pequena parte de toda uma vida de privações e agonia.