segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A República, Livro III

Tema: A formação dos guardiões e de outras classes na idealização da cidade

Na busca de moldar o guardião ideal desde a sua infância, Sócrates – juntamente com Adimanto – determinam que tais homens deveriam ser livres e recear mais a escravidão do que a própria morte.

Não seria permitido aos guardiões ter acesso à quaisquer poemas que falasse sobre o Hades, deus dos infernos, ou mesmo de um Deus que destinasse ao homem o mal.

Propuseram, pois, um modelo contrário a este, nas conversações e nas poesias. Eliminar-se-iam também “lamentações e lástimas de homens famosos”. (76)

Sócrates alega que estes homens não devem ser muito propensos ao riso, pois na maior parte das vezes em que alguém se entrega a um riso excessivo, este lhe provoca uma transformação da mesma forma excessiva, e seria inadmissível que se representem homens dignos de estima sob o domínio do riso.

Os “donos” de toda a verdade, ou seja, de toda a informação censurada aos demais membros da comunidade, seriam os líderes da cidade, e só a eles compete mentir, para o interesse da própria cidade. A todas as demais pessoas não seria lícito esse recurso.

Aos guerreiros, restava-lhes a reclusão; não poderiam ter ambição ou sequer receber agrados ou presentes. Para que isso se tornasse possível, obrigar-se-ia os poetas a negar as atitudes dos poetas de outrora, enfraquecendo deuses e sucumbindo os homens. Haveria de se convencer os jovens de que os deuses são incapazes de realizarem coisas más, e equiparar-se-ia os homens aos heróis.

Muito se conversou também sobre o modelo de orador ideal, visto que estes influenciariam os homens. No seu estilo constaria a imitação e a narração simples. Contudo, dependendo da natureza do discurso, a imitação teria uma menor participação – isso aplicar-se-ia em discursos longos, e não admitir-se-ia queixas e lamentações.

Sócrates visa, com intervenções de Glauco, também educar os guardiões através da música, procurando “artistas de mérito, capazes de seguirem a natureza do belo e do gracioso, a fim de que os nossos jovens, à semelhança dos habitantes de uma terra sadia, tirem proveito de tudo que os rodeia, de qualquer lado que chegue aos seus olhos ou ouvidos uma emanação das obras belas, tal como uma brisa transporta a saúde de regiões salubres, e predispondo-os insensivelmente, desde a infância, a imitar e a amar o que é reto e razoável (...)”. (95) A finalidade da música culminaria no amor ao belo.

Após a música, é através da ginástica que educar-se-iam os jovens. Seria preciso que eles se exercitassem, por intermédio da música, desde a infância ao resto da vida.

A alimentação também foi um ponto levantado por Sócrates, posto que os guardiões seriam os atletas da maior das disputas. Seria necessário um regime apurado aos guerreiros, para que se mantenham como os cães: sempre em alerta, para que vejam e ouçam com maior acuidade e, mesmo na alternância nutricional, mantenham intacta uma excelente saúde.

Os médicos dessa cidade seriam os mais hábeis, haja vista que desde a infância começaria a aprender a sua arte, e “tivessem tratado o maior número de corpos e os mais doentes” (103) e estes ‘supermédicos’ curariam a doença corpórea a partir da ‘doença’ da alma.

Da natureza dos juízes – no diálogo entre Sócrates e Glauco, chega-se à conveniência de que os juizes precisam não ser novos, mas velhos, tendo aprendido tarde o que é a injustiça e que a tenha conhecido sem apoderar-se dela; outrossim, estudando-a “como uma estranha” (104), na observação de outrem. O juiz precisa aprender a injustiça na sabedoria, e não através de sua própria experiência. O pensamento central da questão é que um homem de boa alma é necessariamente bom, e esse é o caráter ideal para capacitar um homem de julgar os outros.

Para aqueles sem solução, seja por enfermidades, seja por caráter, o destino nessa cidade dos sonhos seria único: a morte. Sócrates comenta sobre os incorrigíveis, e nada poderia abalar a estrutura da comunidade.

Indo-se mais a fundo no contexto sobre o constituir-se da cidade, chega o turno de decidir quais os mais capazes para sentar no trono mais alto da hierarquia: quais seriam os mandatários? Seguindo uma lógica já anteriormente abordada no diálogo, Sócrates não hesita em determinar que os mais velhos seriam estes entes, e caberia aos jovens a obediência.

Mas também entre os mais velhos se deveria escolher os melhores. Exigir-se-ia inteligência, autoridade e dedicação à coisa pública. Escolher-se-ia, entre os guardas, os que, “após um exame, nos parecerem que poderão fazer, durante toda a sua vida e com toda a boa vontade, o que considerarem proveitoso à cidade, sem nunca consentirem em agir em detrimento do Estado”. (108)

Estas pessoas seriam observadas em todas as fases da vida, treinadas desde a infância, no intuito de que se observe que se mantenham fiéis às máximas estabelecidas e, independentemente do calor dos acontecimentos, não se desfaçam do trabalho imperativamente a favor da cidade e para o bem desta.

Far-se-iam testes a partir das primeiras fases da vida, e aqueles que não fossem aprovados, iriam gradativamente sendo eliminados e destinados à funções hierarquicamente inferiores. Só restariam aqueles que “se lembrem dela, [da máxima de considerar o maior bem da cidade]” (109), restariam aqueles que são difíceis de “seduzir”.

E então, impor-se-iam trabalhos, dores, combates e uma série de adversidades para certificar-se desse empenho desejado, para que haja certeza de tal constância.

Por fim, estas pessoas enfrentariam uma terceira prova, “a da sedução, e observá-los: assim como se conduzem os potros no meio dos ruídos e tumultos para ver se são medrosos, é necessário, durante a sua juventude, transportar os guerreiros ao meio dos objetos assustadores, depois reconduzi-los aos prazeres, para descobrir – com muito mais cuidado do que se experimenta o ouro pelo fogo – se resistem ao encanto e se mostram decentes em todas essas circunstâncias, (...) se são, por último, capazes eminentemente úteis a si mesmos e à cidade”. (110)

Aquele que passasse por todos esses testes e, no julgar dos comandantes, tivesse se saído “puro”, seria nomeado chefe da cidade e lhe caberia todas as honrarias possíveis, em vida e postumamente. Todos os demais seriam excluídos; e assim definir-se-ia quais seriam os chefes e quais seriam os guardas.

Durante diálogo, Sócrates confessa que seu sistema baseia-se no que ele chama de uma “nobre mentira”. Como convencer o simples agricultor de que era incapaz de ser um guardião? Para isso, tentar-se-ia convencer a priori os chefes e soldados, e posteriormente os demais cidadãos, de que tudo que foi ensinado, educando-os e instruindo-os, não passava de sonho; que, de fato, eram criados no “seio da terra”, eles e tudo o que lhes pertence, e depois de tê-los formados inteiramente, a terra, “a sua mãe, lhes deu à luz; que, por isso, devem considerar a região que habitam como sua mãe e ama, defendê-la contra quem a atacar e tratar os outros cidadãos como irmãos, filhos da terra como eles”. (111)

Desta forma, recorrer-se-ia à religiosidade para manter a população fiel; falar-se-ia que Deus deu a alguns a arte de comandar e por isso são os mais preciosos. E assim sucessivamente, como se sua aptidão fosse, na verdade, uma dádiva divina. O Estado apenas estava descobrindo através dos testes o que já havia sido pré-selecionado por Deus.

Das habitações dos guardiões – todos os bens nas habitações dos guardiões serão comuns a todos os guardas, exceto os de primeira necessidade. Nenhum teria qualquer outro imóvel como, por exemplo, uma outra casa ou uma loja, onde qualquer pessoa possa entrar. A alimentação será fornecida pelos concidadãos, como forma de pagamento pelo serviço prestado como guardas da cidade, e somente o suficiente para que não haja excedente. Tomarão as refeições juntos e viverão permanentemente como soldados em campanha. Em relação aos bens materiais, ser-lhes-ão dito que é suficiente o metal que os acompanha na alma, pois o metal terreno é indigno de ser manejado por uma classe por demais privilegiada na ótica de Deus e em sua função em relação à cidade. E eles serão os únicos que terão o “privilégio” de não tocar em quaisquer objetos em ouro ou prata.

Mas há de fato uma “res” pública em todo esse sistema proposto, afinal, sendo todos irmãos, todos teriam chance de alcançar o topo da hierarquia, assim como os seus filhos. O oposto também é verdadeiro, um filho de um chefe poderia ser reprovado nos testes e tornar-se um artesão, ou pertencer a qualquer outra atividade que lhe fosse pertinente.

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